por Manuel Dutra (*)

Preâmbulo
Tendo em vista a sensível e rápida deterioração da qualidade de vida na cidade de Santarém, em níveis que vão tornando a convivência social e o bem-estar individual cada dia mais difíceis e mesmo dramáticos, convido de modo veemente, insistente mesmo, a todos os freqüentadores regulares ou esporádicos deste Blog, e a todas as pessoas amantes de Santarém que tiverem conhecimento deste Manifesto, para darmos início a uma ação coletiva permanente (não a uma “campanha”) em favor da solução de dois problemas crescentes, embora muitas outras coisas devam ser consertadas em benefício de todos e da paz social.
Refiro-me ao aumento acelerado do calor e à desordem no trânsito.
O Calor: todos percebemos que a cidade foi e está sendo desarborizada rapidamente, produto da ação humana e de uma mentalidade que vê “progresso” tão-somente quando se constroem “obras”, espalha-se o asfalto e enchem-se as praças de “obeliscos” em vez de se abrirem espaços para a ventilação e o encontro entre as pessoas. As obras são indispensáveis, mas devem ser pensadas e projetadas para se harmonizarem às necessidades ambientais exigidas pelo conforto e bem-estar humanos.
Raramente, quando o poder público se refere a arborização, vem logo aquela velha idéia de que plantar árvores serve para “embelezar” a cidade. Ora, embelezar, sim, mas antes da estética, o bem-estar físico da sombra, da diminuição da quentura insuportável, da humanização do espaço público em todos os sentidos. Beleza e conforto físico se completam!
O calor que hoje sentimos nas ruas de Santarém não é o calor natural da Amazônia, mas é produto humano, do descuido. Há 20 ou 30 anos não era assim, logo, a pergunta: como estará a quentura daqui a outros 20 ou 30 anos? Que qualidade de vida terá o povo de Santarém? As filas nos hospitais públicos e postos de saúde são fruto de muitas outras causas, mas as doenças respiratórias, sobretudo, acentuam-se com o calor excessivo, especialmente em relação aos pobres, residentes em casebres contíguos, verdadeiros fornos a queimar a alma das pessoas. Nas ruas, trafegar de carro ou ir a pé torna-se um suplício.
Que sociedade estamos construindo? Que futuro temos? Estamos construindo um espaço no qual será impossível a convivência, o trabalho e a reprodução humana, neste momento em que, no mundo todo, os mais sérios cientistas atestam o aumento do calor, com todas as conseqüências que daí podem advir?
O Trânsito: O trânsito de Santarém já se tornou um caso de saúde pública, um escândalo, numa cidade ainda não tão grande, mas que já experimenta os mesmos problemas das megalópolis brasileiras: ruas asfaltadas sem as obras de drenagem, falta quase total de calçadas para pedestres, ausência de manutenção ensejando a buraqueira geral, esquinas perigosíssimas, motoristas visivelmente sem o mínimo preparo para conduzir um veículo.
Seria necessário um levantamento estatístico para sabermos quantas dezenas de jovens estão hoje jogados na cama ou na rede, sem pernas, sem braços e outras perdas físicas que os impedem de trabalhar, que destrói a vida de quem está apenas começando! Além do escandaloso número de mortes nas nossas ruas. Uma tragédia! Para os que precisam sair às ruas, a pé, de carro, ônibus ou moto, vem o medo, um medo onipresente.
As ruas de Santarém são hoje amedrontadoras, logo, somos uma população cuja qualidade de vida se esvai pelo temor do atropelamento, da simples travessia de uma rua, de um motorista que não sabe conduzir o veículo e, pior, não respeita o pedestre. Os problemas são muitos, entre eles, a péssima sinalização das esquinas, o excesso de velocidade não punido, ausência de guardas nos locais de maior fluxo.
Diante do exposto, proponho o que segue:
1. Todos os freqüentadores do Blog do Jeso, constantes ou casuais, que enviarem um comentário a este Manifesto, automaticamente se inscrevem neste movimento que não pretende ser uma campanha (campanha é palavra desgastada, coisa que tem começo, meio e fim), um movimento que seja permanente, uma imensa usina de idéias, sugestões e que, no médio prazo, produza efeitos práticos junto ao poder público e às forças organizadas da sociedade.
2. Este Manifesto não se propõe a ficar tão-somente na virtualidade ciberespacial, mas contribuir decisivamente para a produção de soluções, cobranças e ações diversas, pois a proposta não é ficar somente cobrando do poder público, porém mobilizar a sociedade inteira para realizar e cobrar respeito consigo mesma. Imposto se paga para ter retorno. Cidadão que trabalha e paga imposto não tem que se deixar levar por conversa de quem quer que seja. Precisa se mexer. Afinal, a cidade é de todos e não só daqueles que eventualmente acham-se no poder!
3. Todos os que enviarem um comentário a este Manifesto se comprometem a enviar não elogios, blá-blá-blá ou coisa parecida. Mas enviar idéias, sugestões, pensamento novo capaz de gerar ações novas e inovadoras;
4. Este Manifesto não cria uma entidade nem um movimento organizado, não pretende criar nem atuar como mais uma “entidade”, mas pretende ser um motivador de atitudes positivas das pessoas, individual e coletivamente, envolvendo entidades de todos os naipes, se assim o desejarem;
5. Como aqui não se propõe a criação de um movimento ou de uma entidade, o Manifesto não apresenta, nem apresentará coisas como um “coordenador” nem qualquer forma de administração ou burocracia. Propõe, tão-somente, ser uma chama coletiva, permanente, de permuta de idéias e cobranças justificadas, exigência coletiva aos detentores do poder para implementarem, urgentemente, políticas públicas que atendam à maioria da população e tornem Santarém um lugar bom e decente de se viver (Atenção: política pública não se confunde com ação governamental, mas com um projeto ou um programa de longo prazo, produto do debate e da decisão conjunta da sociedade com o poder público).
6. Caso alguns dos freqüentadores do Blog do Jeso o desejarem, e espero que o queiram, serão estimulados a se reunir presencialmente para discussões e mesmo para a formação de um grupo organizado de luta pela qualidade de vida em Santarém. Essa possível e desejada iniciativa será apoiada pelo Blog e pelo autor deste Manifesto, mas não serão a estes ligados institucionalmente;
7. Por fim, este Manifesto pretende ser tão-somente uma faísca, que ponha fogo em consciências adormecidas, em gestos de acomodação, que ajude a pôr fim às lamúrias que a nada levam. Queixar-se, nunca, agir, sempre! Cobrar e fazer!
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* Santareno, é jornalista e professor-doutor em Comunicação Social/Jornalismo.