por Paula Hoyos (*)
Odeio pedir desculpas, por várias razões. Orgulho nem é a pior delas. O que mata é o que vem por trás das desculpas. Algumas situações são simples de lidar. Um pisão no pé, por exemplo, ‘foi mal aê’ resolve. Mas em outros casos, desculpa só soa como uma palavra vazia, que tenta reverter algo que não tem volta.
Outro dia, eu fui, digamos, um tanto quanto grossa com alguém que amo na frente de outras pessoas. Sim, eu sabia que estava fazendo merda. Mas dentro de mim, em algum lugar, tem um botão que aciona meu Personal Pica-Pau Mau. Não sei precisar o que faz isso surgir, mas normalmente é algo que mexe, de forma que nem eu entendo bem, com meu orgulho ou minha segurança. E aí não consigo me controlar.
Vem brotando lá das profundezas do pior lado do cérebro um pensamento maldoso que toma a temida forma de uma frase extremamente escrota, dessas capazes de acabar com o clima de qualquer situação. E aí, depois de um papelão desse, me sinto ainda mais estúpida de ter que pedir desculpas. Como se pronunciar a palavra fosse consertar o que aconteceu.
Sim, eu sei que o objetivo de se desculpar não é reparar o passado, mas mostrar que está arrependido, que sente muito pela cagada que fez. Mas a culpa, a consciência de que a qualquer momento algo pode novamente acionar aquele botão do pica-pau mau, faz qualquer desculpa parecer inútil. Não para o outro, mas para mim. (…)
Desculpas não têm propriedade de fazer o fato passado entrar em ebulição e evaporar no ar. A grosseria continua lá, registrada na mente de quem sofreu com minha estupidez. Assumir o erro não faz a culpa sumir. Continuo envergonhada por um bom tempo, até provar pela convivência, que a merda que fiz foi exceção e não regra.
E é essa a razão maior de eu odiar desculpas: saber que eu cheguei ao extremo, que passei por várias etapas, que tive a chance de parar antes, mas fui adiante, até chegar ao ponto de cometer um erro cretino e ter que me desculpar. Pior que isso é saber que pedir desculpas não me livra de cometer o mesmo erro novamente e aí então, me sentir um cocô outra vez.
Por isso que tenho pavor de gente que faz da desculpa um hábito, um vício. Que ofende, erra, trai, mente e pensa que tudo se resolve com um olhar de cachorro que caiu da mudança e um “me desculpa”. Pra agredir mais só falta dizer “sou humano”. Sou capaz de mandar cheirar o pé.
Como hoje estou num dia bom, vou ser otimista. Vou acreditar que se guardar direitinho na minha memória a sensação ruim que é se arrepender e ter que se desculpar, talvez cometa menos erros. E quando ainda assim vacilar, não vou sofrer tanto quanto ou até mais que a vítima. Porque pior que ter que pronunciar essa bendita palavra, é não admitir o erro e negar se desculpar.
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* Santarena, cursa Publicidade e Marketing na FIT. Escreve regularmente neste blog.












4 Comentários Recebidos
29/3/2008 @9:41 am
Parabéns pela maneira simples de falar das coisas complexas, das nossas crises existenciais.
29/3/2008 @10:52 am
enquanto a desculpa for para tentar limpar o ego de quem comete o erro sempre será uma m…. se a desculpa for pensada pelo outro, a m… cheira melhor. moral da história: deve-se pensar o outro e não a si mesmo.
29/3/2008 @8:33 pm
“Sim,eu sei que o objetivo de se desculpar, não é reparar o passado, mas mostrar que está arrependido, que sente muito pela c…….. que fez”.
Aí está a possibilidade de conter o furacão do ímpeto natural do momento. Isto é um aprendizado que também vem lá de dentro- e tem de chegar antes- para conter os absurdos que muitas vezes balbuciamos, em espaços de momentos intempestivos. Só a análise que vc faz, já é um preceito bom. Alguém já disse que o homem(mulher) qdo. chora cresce. Acho que isso está acontecendo. Quase todas são belas belas palavras. Parabém.
23/7/2008 @11:30 am
Também não gosto de pedir desculpas, mas tenho que adimitir que essa palavra é o primeiro passo para demostrar nosso arrependimento. Acredito que o importante é reconhecer seu erro e depois tentar mudar o que voce fez. Atitudes são muitas vezes mais eficazes que simplesmente um pedido de perdão.
Suas palavras me pareceram bem sinceras. parabéns!
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