por Cristovam Sena (*)
Meus amigos amigos, não sei por que, quando jovem, embarquei na idéia de que os gênios tinham que ser excêntricos. Ainda hoje, pra mim, gênio, mas gênio mesmo, tem que ser meio extravagante, meio maluco, vaidoso. E há quem garanta que a linha que separa os gênios excêntricos dos idiotas loucos é muito tênue.
Sem uma pitada de loucura não se constrói um gênio e, como convivi no meio futebolÃstico, vejo no Garrincha a comprovação desse conceito. Não passa nunca pela minha cabeça a figura de um gênio comportado(a), tipo Mariano ou Filha de Maria. Por isso não considero Pelé um gênio, mas um supercraque da bola que dominava com perfeição os fundamentos do futebol, eleito pela FIFA o atleta do século XX.
Quando em 1979 voltei para morar em Santarém passei a ter convicção de que os gênios realmente eram excêntricos, pois tive a oportunidade de encontrar a exceção que iria confirmar a regra. Conheci o maestro Isoca, homem simples, burocrata aposentado, que levava uma vida metódica com a famÃlia numa cidade do interior da Amazônia, mas com vocação para gênio.
Aproximei-me dele atraÃdo pela sua disposição em atender quem o procurava, principalmente se fosse para conversar sobre fatos, nomes, datas, música, qualquer coisa relacionada à sua querida Santarém. Fizemos com ele uma longa e deliciosa entrevista para o Museu da Imagem e do Som do ICBS em 1989, quando ficamos sabendo a história de algumas das suas famosas composições; que possuÃa a conta número 0001 do Banco do Brasil em Santarém; que compôs para o cinema mudo; que foi redator de jornais da cidade; compôs hino em homenagem ao PlÃnio Salgado; que foi considerado por Frei Feliciano um dos maiores compositores sacros do Brasil; que é imortal da Academia Paraense de Letras; que de vez em quando contava um piada de salão; etc…
Cada vez que mantinha contato com o maestro aumentava minha admiração pela sua simplicidade e genialidade, não conseguia entender como conviviam numa mesma pessoa, pacificamente, dois atributos considerados inconciliáveis.
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* Santareno, é engenheiro florestal e diretor do ICBS (Instituto Cultural Boanerges Sena).












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