por Cristovam Sena (*)
Meus amigos, conheço Nelson Vinencci desde 1993. Para ser exato, desde o dia 04 de setembro, um sábado, quando juntamente com o Hoyama e o Anderson Dizencourt foram saborear umas “ampolas” geladas em casa. Trazia a tiracolo seu violão companheiro.
No início daquele prolongado bate-papo molhado, fui alertado pelo Hoyama de que o Nelson gostava de ser do contra. Que encontrava sempre um jeito de iniciar uma polêmica sobre o assunto do momento, fosse pescaria ou física quântica, em qualquer roda que estivesse participando.
Nunca considerei pecado mortal esse costume do Nelson, pelo simples fato dele, muitas vezes, com suas pinimas, ter temperado as conversas insossas que rolavam nesses encontros de amigos de finais de semana.
Como naquela época os blogs não existiam, suas extravagantes idéias ficavam restritas aos bate-papos, onde se perdiam na embriagues dos seus interlocutores. Na segunda-feira a vida continuava e ninguém se lembrava de nada. Não repercutiam como repercutem hoje, quando expostas no Blog do Jeso.
Em função de um recente arrazoado do Nelson sobre o Círio de Nazaré, que provocou reação até iracunda dos que não concordaram com suas idéias, lembrei-me das advertências do Hoyama em 93, como também de uma curiosidade sobre o pintor grego Apeles, que me levaram a escrever esse comentário. Então vamos lá!
Conta a História que Apeles, célebre pintor grego da antiguidade, tinha o hábito de expor os seus quadros ao público e se esconder para escutar os comentários sobre o seu trabalho. Um dia, expôs um quadro com a figura de uma mulher. Passado um tempo, a costureira da aldeia vendo o quadro parou, olhou e comentou:
- Que maravilha de retrato, que mãos maravilhosas, que coisa mais perfeita. Só um pequeno retoque a fazer na roupa, o botão de cima esta muito perto do queixo, com dois botões seria muito melhor. (…)
Apeles, escondido, logo anotou o que a costureira tinha comentado.
Em seguida veio o cabeleireiro. Vendo o quadro, teceu elogios ao conjunto da obra, mas observou:
- O alfinete do lado esquerdo do penteado deveria estar um pouco mais para trás, isso deixaria o retrato perfeito.
Apeles, sempre atento, ia tomando nota de tudo o que escutava.
Por último chegou o sapateiro que ficou boquiaberto com a beleza da pintura, mas comentou:
- Eu colocaria fivela nos sapatos e então poder-se-ia dizer que o quadro está perfeito.
Tudo anotado, Apeles saiu do seu esconderijo, embrulhou o quadro e foi para a sua casa retocar a pintura, tendo o cuidado de seguir os conselhos dos três profissionais observadores. No outro dia voltou a expor o quadro.
A modista e o cabeleireiro, vendo juntos a pintura retocada, exclamaram:
- Nada mais temos a dizer. Impecável!
O sapateiro chegou, olhou atentamente o quadro e comentou:
- Os sapatos ficaram ótimos com a mudança, mas o vestido…
Ouvindo isso, Apeles saiu enfurecido do seu esconderijo e, interrompendo o sapateiro, gritou - Não passes alem dos sapatos.
Esta frase atribuída a Apeles se transformou na máxima latina “Ne sutor ultra crepidam judicaret” (Não deve o sapateiro julgar além da sandália), que nos alerta sobre a necessidade de termos consciência dos nossos próprios limites. Resumindo: ninguém deve se enxerir sobre algo que não entende ou lhe diz respeito.
Mesmo aprovando a dura que Apeles deu no sapateiro, é bom termos cuidado ao manipular esse pensamento criado a partir da frase do pintor grego, pois corremos o risco de inibir a voz dos não iniciados, o que é pior do que conviver com ela. Afinal, não somos obrigados a ler o que eles escrevem.
Se não difamarem pessoas, ofenderem crenças e maltratarem o português, que falem, escrevam e arquem com as conseqüências por terem falado e/ou escrito. Mas que abundam sapateiros, aqui e alhures, passando dos sapatos, é inegável. Há até quem afirme que alguns são financiados.
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* Santareno, é engenheiro florestal e diretor do ICBS (Instituto Cultural Boanerges Sena).Escreve regularmente neste blog.












11 Comentários Recebidos
21/10/2008 @9:54 am
Mestre Cristóvão Sena, acho que tens toda a razão do mundo, tudo o que você relata ao meu respeito é verdade, fico muito agradecido por você destinar um espaço do seu raríssimo tempo para fazer referencias a minha pessoa, principalmente usando seus recursos intelectuais. Mas para manter a fidelidade da sua escrita achei meio furreca essa parábola grega, penso que não precisava ter ido a Grécia para discordar de mim.
Quanto ao que me referi ao Círio de Nazaré, leia atentamente de novo, pois afirmo na minha escrita que o fiel que vai para o círio com sua fé deve ser respeitado, disse também que acho o Círio de Oriximiná mais bonito visualmente. Mestre essa é minha opinião e jamais me utilizei de alguma outra coisa para convencer a alguém a concordar comigo, juro que não sei recorrer as parábolas.
Outra coisa que você deveria ter observado é que sempre respeitei a opinião dos que me criticam, muitos devotos parecem xiitas, mandaram inclusive eu para PQP, aceito calado e compreendo a falta de argumentação de alguns. O que mais me admira é que ninguém pode discordar do Círio de Nazaré, parece algo intocável onde reina a verdade absoluta, isso para mim parece meio Hitler, e eu que sou a favor da liberdade de pensamento não posso concordar com isso.
Demais agradeço por você ter me escolhido para ser referencia na sua escrita, um grande abraço.
Nelson Vinencci
21/10/2008 @11:06 am
Sabe o seu LUNGA que saiu anos atrás em reportagem do Fantástico? O Lunga santareno deve ser o Nelson. Explicando, o seu Lunga é aquele velhinho que é sempre do CONTRA.
21/10/2008 @12:53 pm
Perfeito Cristovam…… sábias palavras….
Ao Nelson, cabe a reflexão…. e se conseguir… humildade….
Nelson, ainda dá tempo…..
21/10/2008 @1:09 pm
Cristovam e não Cristovão, devemos ser cautelosos com as palavras, interpretar a mensagem. Cristovam, sempre analisando tudo de uma forma muito lúcida, é sabedoria, simplicidade. Nelson, calce as sandálias do sapateiro.
abraços
21/10/2008 @3:22 pm
Cristovam foi perfeito. Não necessita de nenhum retoque.
Devemos defender sempre o direito de manifestação, mas o Vinencci como articulista é um excelente cantor.
21/10/2008 @6:46 pm
No mundo tudo tem que haver um equilíbrio, tem que existir o “do outro lado” para poder instigar a idéia do itelectual, para o sistema evoluir sempre foi necessário opiniões “relevantes” como essa do Nelson..
Continue assim Nelson, seus devaneios também são formadores de opiniões dos alienados.
21/10/2008 @8:33 pm
E o Nelson lá sabe quem é Apeles………….ele vai pensar que é a pele de tartaruga, a pele sabe lá do quê! É como chover no molhado, ele não assimila……
22/10/2008 @8:19 am
Acho que uma boa maneira de se resolver uma grande parte desses sequestros tipo om que aconteceu em Santo André, onde o débil mental de Lindenberg manteve duas garotas presas. Sabe como? Simples: É só tirar a policia, a imprensa e as tvs do local, esquece o cara. Ele virou artista, se diverte vendo e ouvindo suas aventuras na TV e no rádio. O cara é louco e constata que saiu do anonimato paa ser produto da mídia. Assim é Nelson Vicente, não leiam, não comentem. Esqueçam o cara!
22/10/2008 @9:48 am
Vou colocar mais pimenta nesta maniçoba! Nelson, como sempre foi, é um eterno contestador. Não se conforma com a unanimidade, sabiamente reconhecida como burra. Sabe, como poucos, provocar reflexões sobre fatos e momentos que estão na mente de todos nós como pensamentos consolidados, como dogmas e principalmente como verdades absolutas. São nestas suas divagações que o Nelson se realiza como escrivinhador, como alguém que entende perfeitamente do pensamento popular e capta com rara sintonia o momento exato de emanar suas críticas e seus posicionamentos. Com o violão na mão, não preciso dizer nada de sua qualidade musical. Só um senão: ainda não conseguiu decorar a letra da linda canção do Lenine, “Todos elas juntas num só ser”. Ainda espero ouvi-la na sua voz. Portanto, Nelson é tudo isso. Ame-o ou odeio-o.
22/10/2008 @10:01 am
Embate desleal: Sabedoria, conhecimento, fundamento, argumento e convencimento, versus tentativa de ser…
23/10/2008 @9:36 am
Acho que uma boa maneira de resolver uma grande parte desses seqüestros tipo o que aconteceu em Santo André, onde o débil mental de Lindenberg manteve duas garotas presas. Sabe como? Simples: É só tirar a polícia, a imprensa e as TVs do local. Esquece o cara. Ele virou artista, se diverte vendo e ouvindo sua aventura na TV e no rádio. O cara é louco e constata que saiu do anonimato para ser produto da mídia. Esse é o caso do Nelson Vincente, não leiam, não comentem, esqueçam o cara.
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