por Josué Vieira (*)
De uns quatro anos para cá quando se entra em uma locadora de vídeo, na seção de lançamentos, estão amostras títulos de conteúdo de violência gratuita. São jogos labirínticos, cujo prêmio são as cores das mutilações; albergues em que hóspedes se assemelham aos rosados e drogados filhos da elite econômica estadununidese, apagando qualquer timidez e formalismo libertário da juventude européia.
Ainda por cima, há títulos entre o humor e o sadismo, que, como são novos, o conceito de frivolidade, rapidez de consumo tornam-se “clássicos” pela repetência de conteúdo e reciclagem do fim. Dentre os dispostos na prateleira, escolhe-se o melhor pela capa, pelo ínfimo conteúdo sinóptico ou pelos atores, leva-se aquele que mais reflete nosso gosto de entretenimento, para ser mais claro: nosso individualismo.
Um dia desses fui escolher um filme que prestasse no meio do mar das produções cinematográficas, tentei, como se tivesse deitado em uma cama, em quarenta minutos depurar as imagens das capas, mas a repetência por temas era tão epidérmico, como que saído de uma experiência de clonagem, que a única alegria consumida nos instantes de avaliação foi aquela de sair de casa e conviver em civilização.
Notei a sempre repetência de escolha das imagens está se tornando inflacionado. O discurso de que vivemos em uma época pós – humanidade, pós – historia, cujo foco não é a caverna existencial, mas a sombra humana, comum, singela e dispersa no limbo social, no extremo pólo do existir. Concretiza-se ferozmente, abarcando léguas de pensamentos comportamentais.
Lembro, quando falo disso, das inúmeras caracterizações de liberdade produzidas pelo pensamento humano no século XX, foram tantas que os preceitos plastificaram-se na heterogeneidade discursiva, posto que o respeito de opção tornou-se o baluarte e o reconhecimento do alheio, do não – pertencimento, do disperso e do intimo.
Exemplo do que falo é demonstrado em nossas escolhas momentâneas dos suportes do entretenimento, caso o cinema, principalmente pelo seu teor didático e moralista, o cinema entrou na cesta básica de nossos comportamentos. É por ele que a interação psíquica e emocional entre indivíduos se processa, tornando fervilhante a averiguação das palavras anteriores - por isso, detalha-las é permanecer em termos circunscritos do “já dito”, daquilo concebido pelo pensar.
Partindo de uma linha lógica de acontecimentos que influenciam a industria do entretenimento, em especifico as produções cinematográficas, vejo que os conceitos de uma pós-modernidade, onde o ser humano desprende-se de suas origens materiais, tornando-se um ser cosmopolita, de pensamento plástico, frívolo e especulável, cuja função é tornar tudo em simbólico, até mesmo sua Historia, é a proto-evolução dos perfis de liberdade criados e disseminados na sociedade pelo suportes preenchidos de conteúdos pós-historicos, pós-humanos.
É como Claude Levi-Strauss lecionou em seu teorema do Estruturalismo, que o único conhecimento perene e universal em sociedade, que possibilita a movimentação de outros saberes, como a ciência, o método, a experiência, é o mito. E este ruma para reformulação pela destruição, onde as bases lógicas do acontecimento são desmontadas e refeitas na oficina do imaginário.
Mas cabe a pergunta final: vale alimentar este imaginário com imagens de violências extremas, para que o próprio suicide-se, deixando nas mãos de terceiros, como o Estado Privado, a decisão dos rumos em que o mito deve tomar?
Por isso, vale repensar a época atual pelo ângulo da paranóia, como Foucault disse após deliciar uma platéia com 78 convidados na Soborne IV, em 1961, com sua tese sobre a loucura: “Para falar de loucura, é necessário o dom de um poeta”. Parafraseando: para falar de cinema, liberdade e comportamento, é necessário um dom além humano.
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* Santareno, é poeta e contista. Escreve regularmente neste blog.













3 Comentários Recebidos
13/11/2008 @8:27 am
Olá, senhor Poeta. Queria apenas fazer algumas consideraçãoes sobre sua reflexão, pode ser?
Um dos meus livros preferidos durante a adolescência foi Werther, de Goethe. O senhor sabe que a história é trágica, apesar de linda (ao meu ver, claro). Os adultos diziam ser um absurdo uma adolescente gostar daquele livro nefasto. De alguma maneira, eu gostava da narrativa, mais do que do enredo em si. Da mesma forma, acho muito natural que meu irmão adolescente goste de ver os filmes americanos apenas como divertimento. Na década de 60, Edgar Morin, que o senhor também deve conhecer, publicou o livro “O Espírito do Tempo” (A cultura de massa no sec. XX) em que faz uma análise dos mitos no cinema, na literatura, dos clichês e de como se estrutra a cultura de massa e fala ainda sobre as possibilidades de identificação e projeção do leitor/espectador em relação aos personagens e tipos de história repetidas pela indústria do entretenimento. [bom, antes dele, houve Theodor Adorno fazendo observações semelhantes e mais radicais sobre a indústria cultural etc etc].
Há pouco tempo li uma biografia de Edgar Morin, “Meus demônios”, onde ele conta uma situação excelente pra me redimir dos pecados de gostar de filmes como “Eu vos declaro marido e Larry” ou “Pequena Miss Sunshine” ou “A Vila”. Morin, em uma conferência de filósofos, sociólogos e outros pensadores sobre cultura, falou ingenuamente que gostava de filmes de faroeste. Houve um enorme burburinho na platéia. E um dos ouvintes prostestou dizendo ser um absurdo que um homem esclarecido como ele pudesse gostar de um gênero que exprimia todo o poder de dominação dos americanos. Ao que ele, super faceiro, respondeu algo como “não é porque eu goste de me divertir com filmes deste tipo, que eu vá deixar de ser um homem que reflete sobre o mundo ou sobre esses tipo de produção”.
Enfim, existem produções bizarras, sim. Mas tem coisa boa nas locadoras e há ainda os que fazem bons usos das bizarrices do cinema.
Desculpe-me pelo longo comentário. É que eu sou meio alérgica a Adorno. E só sei ver o cinema como humana.
13/11/2008 @11:13 am
Meu amigo, os donos de locadoras são comerciantes e não intelectuais, existe cinema de todos os cantos do mundo, com diversas vertentes, cine arte, cine científico e os enlatados que vendem muito e outros, inclusive os de sacanagem.
Agora sinceramente ninguém tem culpa de o Sr só caminhar nas prateleiras de ação e terror… Putz!
13/11/2008 @3:09 pm
Concordo plenamente com o anônimo, (ninguém tem culpa de o Sr só caminhar nas prateleiras de ação e terror… Putz!)
Com certeza você se considera um intelectual,porém, o seu texto varia muito, assim como a sua opinião que é procurar filmes só no lançamento, os melhores estão nos de 2,00, existem vários em que se percebe a essência da vida, coisa esquecida hoje em dia, mesmo nas locadoras daqui existem filmes bons de assistir que ainda trás uma reflexão,coisa que os lançamentos não tem, eles lançam filmes pensando somente em vender.
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