por Josué Vieira (*)
Passado um tempo que os índios revoltados com a proposta apresentada pela Eletrobrás para construção da hidrelétrica em Belo Monte, em que o resultado foi a cena de espancamento do engenheiro. Alguns questionamentos se avolumam na instância memorial do conhecimento como a identidade contemporânea do índio, o desempenho da Funai nos âmbitos amazônicos, demarcação das reservas indígenas, atuação da militância social e pastoral nessas reservas, e ainda outros assuntos de relevância menor.
Mas nenhum desses abordam o signo do metal naquela atuação marionetizada dos índios, personificada nos terçados. Muitos podem ver os terçados como armas, se assim olharem pelo lado penal legislativo da comunidade brasileira, outros até induzem uma faceta interpretativa de defesa e de instrumento agrário, mas poucos conseguem transpor os meros fatos, possibilitando outros olhares sobre o metal como emblemas de “subjulgação”, “produção/consumo”, “urbanização”, e “identidade/demarcação/proteção”.
E ainda ocorre que o terçado é uma das medidas temporais impositivas em nossa historia latino-americana, pela idéia de utilidade do metal.
Partamos de pequenos lances históricos e analíticos para podermos entender a práxis do terçado na cultura indígena contemporânea, o que ele nos conta sobre sua construção identitaria pela sua utilização desde o primeiro passo das botas espanholas e portuguesas em solo americano até sua contemporaneidade, e qual o significado dele naquela cena de revolta. (…)
De inicio, afirmo que o ferro é o símbolo maximo da dominação cultural na América Latina através de quatro momentos específicos e exemplares na Historia deste continente. A primeira etapa de consolidação do ferro como “dominação”, fora feito através de dois procedimentos implícitos na atuação do espanhol e português em solo latino: a entrada da espada e a saída de metais preciosos para abastecer a garganta que era a Espanha e Portugal dos séculos XVI ao XVIII, em que os livros didáticos tratam isso de “colonização” e ainda distribuem um verbete peculiar para esta espoliação, que é o de “Colônia de Exploração”.
Neste primeiro momento vejo, que o metal é concebido pela idéia de preponderância violenta, pois o meio utilizado para sua práxis é a subjugação étnica, sendo que se houvesse testemunhas desse período, que não fosse os relatos dos viajantes, este período seria lembrado como um período em que Portugal e a Espanha iam de mãos dadas ao shopping do mercantilismo. E o momento que o Estado se presentifica, instaurando a concepção de “poder institucional” alem mar, é como uma afirmação de Eduardo Galeano: “o quintal precisa de mais madeira para cerca”.
O segundo momento, e mais duradouro, é aquele englobado no período da regia espanhola e portuguesa nas Américas, onde o metal é peso, medida e punição, abarca concepções funcionais do poder instaurado pela exploração das riquezas, cujo fim era abastecer uma nobreza poluída de vícios e costumes gloriosos que levavam a imagem de muitas digitais indígenas de mãos esquecidas no fundo de muitas valas de mineração.
O terceiro momento lembrou-me Walter Benjamin em um ensaio “Paris, capital do século XIX”, em que certo trecho ele cita o ferro como a matéria primordial da modernidade: “Com o ferro aparece, pela primeira vez na historia da arquitetura, um material artificial. A isto subjaz uma evolução cujo ritmo se acelera do decorrer do século. Isto recebe o decisivo impulso quando fica claro que a locomotiva, com a qual se faziam experiência desde o final dos nos 20 (…)”. Com um pensamento dialético marxista Benjamin distribui conhecimentos sobre a utilização do ferro na arquitetura.
Neste momento o metal ganha uma concepção de transição, pois enquanto ele antes enriquecia nobrezas desbotadas e matava um sem números de ancestralidades milenares, neste momento ganha um sentido de acomodação e urbanização, agora ele é tratado pelo olhar do “poder estético do Estado”.
Mas que para isso fosse organizado em arquitetura a idéia de modernidade, Estado, liberdade e individuo sofreram deformações em sua base ideológica, por isso o momento de transição, que ainda hoje em terras latinas este ferro ainda causa sangrias, mudaram-se os objetos de exploração, antes o índio e o negro, agora os espaços urbanos, empurra-se a moradia descendente daqueles mineradores escravos dos séculos XVI para os sobrados favelados dos morros ou das comunidades distantes, obrigando-os a uma adoração mítica ao metal urbanizado e forjado em prédios, calçadas, lojas, telões, shoppings.
É neste momento em que o metal é reverenciado, sendo o papel idílico do terçado a força símbolo de acomodação dominante sobre o sujeito. Vejo que estou generalizando esta perspectiva mais uma situação me dá forças de continuar com a explanação genérica, e isso remonta dois contextos. O primeiro, mais próximo, foi superbondiado no imaginário cultural dos latinos americanos, quando os nossos “civilizadores” trouxeram a espada para fatiar riquezas, punir os malogros dos índios, que alguns, antes que a espada chegasse, já se entregavam ao veneno e a sufocação.
Por isso, a imagem da espada e sua utilização no contexto latino deram possibilidades de transferência de valores de “proteção” e “poder” na “pós-civilização” dos nativos, ou seja, quando aqui já se acomodara um buraco.
Outro, um pouco distante, mas não tão assim do primeiro contexto, se refere, aos que os livros de ensino fundamental e médio falam de “neo-colonização do século XIX”, trocando em miúdos esta costela de tambaqui, a atuação capitalista da Europa sobre a África. E neste momento o papel do terçado se andaluz próximo do que foi a espada dos espanhóis e portugueses aqui nas Américas, pois a venda de facões, terçados para tribos africanas é secular, isso se aproxima da concepção estratégica militar dos Estados inglês, francês, alemão, belga e italiano na África, por que sempre foi mais barato varrer as ancestralidades tribais, e ainda tirar um lucrinho, patrocinando a chacina mutua, do que fazer como os “colonizadores” do século XVI, de implantar um sistema e dele sugar até as ultima pedra de minério.
E pelo que noto este mesmo sistema de dominação consciente anda sendo empregado na Amazônia, em especifico nas reservas indígenas, desde os meados da década de 60. Fazendo do terçado o símbolo maior de sua presença. Assim, quando presenciei a cena de linchamento do engenheiro, tive duas visões gradativas daquele evento. A primeira me assaltou como fosse um vomito civilizatorio das medidas de subordinação do índio, a segunda, e mais profunda, que fez culminar nesta opinião, ainda me pergunta sobre o papel do índio no atual panorama social, ao qual prefiro dizer que ele esta servindo ainda os interesses dominantes nesta região.
É como as formas de escravização ganhassem impulso e aceitação no lado cultural, antes era a terra, depois o que havia dentro dela, por seguinte os frutos gerados pelo capital humano, e hoje a face da escravização estar em dar a voz, ensinar, uflar a cultura, e no final distribuir terçados, para lavoura, monocultura, proteção e identidade.
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* Santareno, é poeta e escritor.












1 Comentário Recebidos
7/6/2008 @9:10 am
O texto parece interessante, mas conclui como qualquer outro: índio selvagem e suscetível à dominação! Dica: índio é a palavra que os colonizadores inventaram, indígena é a palavra que o próprio se identifica.
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