por Josué Vieira (*)
Quando se fala em novo se aduz “lançamento”, e tudo que é momentâneo necessita de consumo imediato, para uma avaliação, apreciação, vindo até servir de modelo de produção. O novo chama atenção pela própria recepção que se tem do momentâneo, do imediato, é comum se consumir pelo consumir, criar pelo criar, copiar até surgir outra base para copiar. Esse pensamento não só pertence ao domínio do produzível, o capital molda, impõe e requer resultados, todos os nossos processos de vida social passam constantemente pelo modelo do reproduzível.
Mesmo considerado como velho, um objeto ganha novidade quando há um olhar interessar, e por ele ganha “utilidade” - observe mais uma palavra ligada ao (re)produzível, ao material. Assim, o cinema se sustenta não em uma elaboração de parâmetros, mas em um olhar de momento, de útil, voltando, ao (re)produzível.
É por esta via de conhecimento que o cinema edificou seus maiores mitos, do cidadão Kane ao Poderoso Chefão, de Apocalipse Now ao Rambo, de O Vento Levou à Close, de 007 à Bourne, do Dr. Jivago à Caçador de Pipas. Por isso, é comum notar a ligação entre eles, imprimindo-los “representação” no sentido de espelhamento, ou para termos mais sincréticos, uma trama de reforço didático do real, do possível e do histórico.
Embasando essa perspectiva, busquemos na Historia do gênero essa concepção de ligação existente entre o (re)produzível, a “representação”, e a utilidade do objeto como circunscrição do útil. Quando o cinema surgiu, nos fins do Século XIX, em confluência a uma necessidade social de registrar a modernidade e os fatos que nela circundavam, a técnica foi logo expurgada devido à sua co-relação a que se transmitia como “frivolidade” de seus objetivos sociais.
Anos mais tarde, por volta de 1910 – 1935, uma modernidade baseada nos princípios da acumulação de posses, consumos, etiquetas urbanas, galerias, começa ganhar sentido para aquela sociedade vinculada – ainda – a perfis nacionais, progressistas e liberais, possibilitando a criação da necessidade de se imprimir alguma utilidade naquela tecnologia da imagem, logo os campos de exploração visual se ampliam e começam sintetizar hábitos, relações de tratamento, posturas, idéias, políticas, comportamentos.
E foi pela investigação do comportamento humano que o cinema ganhou força motriz de temas, por este caminho as técnicas das imagens se associaram a uma pretensão de ampliar a vida social moderna e industrial que nascida em uma tradição moral e didática buscava registrar suas origens.
Por vinculo ideológico, esta tradição se deveu aos livros de romances, contos e novelas de aventuras, e principalmente aos folhetins romanescos editados em jornais de ampla tiragem, cuja seção destinada a eles era a do entretenimento. Em que o objetivo dessa era deleitar o prazer do burguês industrial e de suas companheiras ociosas, e de seus filhos.
É notório que nas etapas de formação de leitura, essas variações de leituras familiares tinham por afinidade outras praticas sociais oriundas dos contos e lendas orais, onde o ritual de socialização se dava em torno da comuna, posteriormente da vila e depois do burgo, na qual o mais velho da comunidade desempenhava o papel de contador das origens dos povoados, dos ventos, das águas, das terras e das ancestralidades distantes no espaço e tempo, diluídas em historias de narrativas fragmentadas.
Tendo em consideração elementar as formas de socialização emotiva e psíquica, o Cinema tem seus mecanismos providentes e coaduno a uma tradição moral e didática, em que mesmo se distanciando de seu propósito que é o entretenimento, suas técnicas reforçam os perfis e modalidades das estruturas sociais.
Mesmo reformulado o tema, o conceito de “novo” permeia o seu consumo e utilidade da técnica. Assim como nas historias orais dos ancestrais, como na leitura dos atores da família do burguês industrial dos séculos das Revoluções, o Cinema finca-se, em analogia, no mesmo desempenho de produção e recepção dos gêneros e modalidades anteriores ao seu uso social.
É a partir dessa configuração análoga da Historia dos suportes de entretenimento, que os filmes contemporâneos refletem os conceitos e discursos circundantes em sociedade, se hoje a pós modernidade ainda rege os modos de produção e consumo, de sociabilidade, é lógico que as produções atuais vão refletir os desprendimentos das origens (O Sol de Cada Manhã), cosmopolitismo (Violino Vermelho / O Pianista / Não estou lá), pensamento plástico, frívolo, especulável tornando tudo simbólico (Tiros em Columbine / Nação Fast Food / Nicotina / Transporting).
Não me desagrada falar sobre o que vale assistir no escurinho da caverna, nem discordar dessa Historia e de seus protagonistas. Diante do contexto o que me deixa impaciente por preocupação é a forma com que as técnicas de reprodução ideológica do social são trabalhadas e dispostas ao leitor mediano. A maneira como são dispostos pelo Cinema atual os temas universais (amor, possessão, encontro, descoberta, conhecimento, religião, e outros) e imposto o continuísmo do consumo, transpõe aquela querência de liberdade baseada na violência.
Creio que esta, surge como um aparelho ideológico disciplinador, pois quando se fala de uma pós-historia, pós-humanidade, se tem, em resumo, a idéia de uma vida sem vida, um fazer sem objetivo, uma idéia sem vinculo, um Estado sem Nação, uma cidadania sem individuo. Nota-se a construção de um projeto intelectual e o reforço de outro sem a existência dos atores nucleares dessa Historia.
Vejo que a construção filmica das temáticas atuais são como os mesmo terroristas que fundaram a nova historia do contemporâneo, sem personalidades, rumos; subsistindo o mesmo fato histórico e o reforço dos protagonistas clássicos de um passado desmemoriado, espectador por detrás da cortina.
Por isso, o filme como instrumento de difusão deste mito do descontinuo se baseia na afirmação/mascaramento da reformulação pela destruição, cujas bases lógicas do acontecimento histórico ou fictício são desmontadas e refeitas na oficina do imaginário. Pois o Cinema, como instrumento de reforço didático do real, serve para nós como um modo de se espelhar no escuro, se educar sem o professor chauvinista e pé-no-saco, auferir títulos de bondade e maldade, projetar sonhos em um consumo calado e ocular.
Agora se a observação é tentar ser intelectual da fome, vou acatar a recomendação do filosofo contemporâneo, Elixir Paregórico: só sei que nada sei, paga tua é a amizade continua…
——————–
* Santareno, é poeta e contista. Escreve regularmente neste blog












1 Comentário Recebidos
20/11/2008 @10:59 am
Pelo visto és cinéfilo, heim? Também tenho paixão por cinema e abro mão de muita coisa para ficar no escurinho do meu quarto (na falta de um cinema) vendo de tudo um pouco. Assisto de clássicos a filmes trashs oitentões.
Em momento algum nenhum dos filmes que assisti me fez mudar de opinião e/ou me ‘teleguiou’. Quando vi ‘Fomos Heróis’, do diretor Randall Wallace, não me contaminei com a propaganda norte-americana. Me emocionei em ‘O sol é para todos’. Ri muito dos efeitos especiais toscos em ‘A Bolha Assassina’, e por ai vai.
Estamos a todo momento sendo bombardeados de propagandas ideológicas pela TV, pelo rádio, no trabalho e na caixa de entrada do e-mail. O cinema tenta fazer isso também, porque não deixa de ser um veículo de comunicação e expressão de idéias. Aliado a isso existe a magia, o calor da emoção, os efeitos especiais e os atores/atrizes brilhantes.
Não sou a favor de mascaramento na telona, mas não deixo de assistir um filme desse naipe por este motivo. Senão nem mal eu posso falar dele. Se ele vai mudar o que penso? Jamais.
Quem realmente gosta de cinema e tem paixão por fotografia, direção, roteiro, jogo de câmeras e tudo mais, tem obrigação de saber tudo de bom e de ruim que está sendo lançado. Eu faço isso e poderias fazer também.
Deixe seu comentário