por Josué Vieira (*)
Se ocorrer a existência de uma palavra que defina o pleito do dia 05/10 está é o Não. De advérbio, de lições palmatóricas das fugidias aulas de um português subliminar, mas aceito, o Não rumou a ser não, ou melhor, partejou o empirismo do imaginário, a consciência.
Recordo meu crescimento em meio a uma consciência de momento, eram os mais elegantes no falar e no vestir; os que contribuíam para construção da casa do vizinho; aqueles em que o nome pesava como cruz ou panfleto, os que minha consciência elegia como modelo.
Comecei a abrir meus julgamentos políticos aos 6 anos de idade, na eleição em que o Collorido fora o arco-íris. Anos mais tarde consegui entender porque toda vez que via aquele senhor de modestos hábitos, cabelo sempre em gel, sapatos finos e roupas alinhadas, como duende. Simples imaginar, era que no fim deste arco-íris dava em Brasília, e lá, guardado, o pote de ouro, estava.
Na época, lembro que de língua portuguesa gostava mais de conjugar verbos, todo fim de tarde lá estava eu, minha velha e o livro do Napoleão Mendes aberto na pagina 256. Ali, percorria os nomes das ações, ao qual o mais oculto era tentar assimilar o modo subjuntivo, lá permanecendo como mistério e charme. Sabia-os, mas aplicá-los era como reza: se pedia, muito lamuriava pouco se fazia.
Assim, preteri as estruturas morfossintáticas, junto delas os advérbios, com a finalidade de degustar os verbos, no final transfigurar-me em subjuntivo, permanecendo um espião das ações humanas.
Passou… deixei de lado as fantasias da espionagem, comecei a me interessar por outras modalidades em que o sujeito se insere. Mas tarde abandonei novamente e procurei outra perspectiva. Neste tempo, governos eram trocados, moedas eram equilibradas, sentia os reflexos dessa conjuntura e de longe acompanhava a caravana da democracia de muletas. (…)
Recentemente, procurando alguns textos para montar uma apostila sobre interpretação textual, deparei-me com um texto de Lya Luft, “A revolução da decência” (“Ponto de Vista” - Revista Veja, 13/07/2005), lendo-o, um trecho causou-me uma fenda: “Somos passageiros de uma nau cujos mandantes, se nada sabiam das rachaduras no casco, estavam seriamente alienados daquilo que deviam governar”, e mais adiante “De qualquer maneira o barco em que estamos metidos aderna fortemente, e não sabemos para que lado cai ou para que margem poderia se dirigir (…) A ignorância é a mãe de boa parte de nossos males. Precisamos ser educados, informados, para compreender e escolher. Idéias (…) Não quero fome zero, mas desinformação zero. Trabalho (que traz dignidade) e educação (que nos esclarece e nos torna capazes de optar) deviam ser nosso objetivo premente agora. Não mais palavrório vazio sobre democracia, mas seu exercício verdadeiro, com lucidez e determinação.”
Tapa na cara, facada, pontapé, gargalo de garrafa cravado na consciência. Lembrei do Collorido, das conjugações verbais regadas à bacuris e azeitonas pretas, e do advérbio, acumularam-se tudo no córtex, o resumo se remeteu a retina, que por indecisão lagrimou.
Deixei o texto de lado, colocando-o em uma coletânea de textos memoráveis. Mas no domingo anterior, 05/10, ele voltou se fundiu ao Não e produziu a diferença, mais de 15 mil eleitores que decidiram confirmar a negação aos incêndios criminosos, desvios de verbas, viadutos surreais, saúde de conto de fada, aos sorrisos hipócritas e aos cipós de curupiras, pois foram 15 mil Nãos a um projeto de mentiras (Mentirão).
Como Stalingrado, “miserável monte de escombros, entretanto resplandecente (…) Em teu chão calcicado onde apodrecem cadáveres, / a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem” (Drummond). O meu Não, miserável, mas “resplandecente”, fez-se democracia, fez-se não, longe das primeiras lições palmatóricas do português, do Collorido, porque como os 15 mil fui a diferença: somei 13!
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* Santareno, é poeta, escritor e contista. Escreve regularmente neste blog.












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