Manuel Dutra (*)
“Qual são os mercados de trabalho [onde o jornalista vai atuar]?” Sabe onde está esta frase? Num fôlder digital dentro do site de um curso de jornalismo. No momento em que nós lutamos para fazer valer a obrigatoriedade do diploma, mas, sobretudo a obrigatoriedade de bons cursos universitários, a frase, além de outras questões, parece dar razão aos adversários da formação superior obrigatória do jornalista.
Sendo assim, não será coincidência o fato de uma repórter de TV informar: “A pedido do escritor Benedicto Monteiro, o corpo será cremado e suas cinzas serão lançadas no rio Tapajós, em frente à cidade de Alenquer…” (para quem não conhece esta região, o Tapajós passa em frente à cidade de Santarém).
O fôlder pode também explicar, ao menos em parte, a formulação desta notícia falada por um apresentador de Rádio: “Segundo a agência fontes, uma mulher portando cinco explosivos detonaram….” Foi assim mesmo. Dá para entender? Fazendo uma exegese do teor confuso e da forma errada da notícia (eu a ouvi só a partir dessas palavras), posso imaginar que o trecho é precedido por outra frase ou período, no qual já havia sido dado o nome de uma agência de notícias a respeito de um atentado suicida.
Imagino que a formulação deveria ser, no caso, assim: Segundo a agência, [cujo nome já teria sido mencionado] fontes informaram que uma mulher portando cinco explosivos que detonaram… Paro por aqui porque não dá para reconstituir a incongruência. Mesmo porque “fonte” não informa, quem informa é gente que tem nome, idade, endereço e um lugar na sociedade. (…)
A colocação do verbo detonar na terceira pessoa plural deixa tonto quem quiser entender o sentido da notícia. O certo é que o desconhecimento da Língua Portuguesa ultrapassa a capacidade de escrever e ler. Nós não sabemos falar, não sabemos articular um texto que seja compreensível a qualquer ouvinte. Por isso o ouvinte não entende um elevado percentual do que falamos no Rádio. Então, para que falamos, escrevemos, mostramos? Para ninguém entender?
Mas, “Bem-vindo à Santarém”. O imenso outdoor dá as boas vindas logo à entrada da cidade, à saída do aeroporto Wilson Fonseca que, como membro da Academia Paraense de Letras, se estivesse vivo, torceria o nariz para a formulação. Mas isso está por todo o Brasil. Nas estradas, quase todas as lombadas estão “à 100 metros”. Até o nome do acento ficou esquecido e alguém perguntou para que serve “esse acento pra trás?”.
Agora, em tempo de campanha política, entramos no tempo das impugnações. Partido tal ou qual pediu a impugnação do candidato X. PT pede a impugnação de Maia. DEM pede a impugnação de Maria – e assim por diante. Ora, impugnação não se pede ao juiz, pois este não é parte na luta partidária. O juiz apenas acata ou não a impugnação promovida por um partido contra um candidato. O certo seria “Partido X impugna candidato Y”. O juiz acatará ou não a impugnação.
Se nós, jornalistas, tivéssemos o hábito de folhear com freqüência os bons dicionários de Português, leríamos, por exemplo, no velho e atual Aurélio, à página 926, que impugnar significa: “Contrariar com razões; refutar, contestar”. Significa também, no desdobramento do sentido, “pugnar contra; opor-se a; resistir”. Aquele que impugna é o impugnador, que na mesma página desse livro que antes chamávamos de pai dos burros, tem estes significados: “Que ou aquele que impugna; adversário; contraditor”.
Ora, estes sentidos nos dizem claramente que impugnar não é ação de juiz, pois ele não tem partido e, numa campanha, ele está como intermediário entre impugnadores, que são os partidos e os candidatos.
A palavra portuguesa “impugnar” é um reforço de “pugnar”, que é a transformação do verbo latino “pugnare”, que significa lutar, brigar, guerrear. Guerra, em Latim, é “pugna”. Quem guerreia numa campanha são partidos e candidatos e não o juiz. Logo, 100% das manchetes que leio e ouço estão erradas.
Igualmente como percebo com muita freqüência em todas as mídias é a incompreensão de colegas jornalistas sobre o que seja um município e o que distingue uma cidade de um município, o que seja uma sede municipal, etc. Expressão assim revela o desconhecimento: “Nas ruas do município”. Ora, município não tem ruas, tem estradas (a não ser áreas como Ananindeua, em que a sede municipal ocupa todo o território do município, que não tem zona rural). Rua encontramos na sede municipal, ou seja, na cidade. Em Belém é freqüente a expressão: “O Tribunal de Contas do Município”, como se o TCM auditasse somente contas da administração municipal da capital.
A propósito, neste momento estou orientando um Trabalho de Conclusão de Curso de um jovem que está se formando jornalista. Ele faz interessante pesquisa a respeito dos erros de Português nos jornais de sua cidade, refletindo de que forma esses erros e imprecisões de linguagem interferem nos conteúdos das notícias e reportagens. A hipótese é que um texto mal produzido, não apenas com erros de grafia ou sintaxe, mas textos mal arrumados terminam por interferir na compreensão do seu conteúdo, o que parece óbvio. E revelam também que o jornalista que escreve dessa maneira, ele próprio não está compreendendo a notícia que está produzindo. Ele está produzindo um texto de desinformação, o anti-jornalismo.
Quando escrevo sobre estas questões, estou longe de querer parecer com aqueles maneirosos “professores” de Português que aparecem na televisão. Aquilo é show e para pouco ou nada serve. O que preocupa é ver o crescimento da desinformação nos nossos meios de comunicação, quase sempre protagonizado por jornalistas esforçados, que desejam sinceramente oferecer a informação correta, interessante, agradável e útil às pessoas. Mas precisamos dar alguns passos adiante. Dominar bem a Língua e as linguagens não significa ser doutor em Gramática ou em detalhes inexpressivos de regras.
O domínio da Língua e das linguagens é sinônimo de domínio das realidades do mundo à nossa volta. O que falamos ou escrevemos é a exteriorização daquilo que está no nosso pensamento, é a revelação da nossa compreensão dos acontecimentos que presenciamos e que vivenciamos. A rigor nós não “utilizamos” a linguagem, mas nós “existimos” dentro da linguagem, pois é por meio dela que tomamos consciência da nossa existência e da existência dos outros. Se escrevemos e falamos com correção mínima, nós comunicamos os sentidos das coisas e dos acontecimentos que desejamos levar aos nossos leitores e ouvintes. Se emitimos confusão, aumentamos a confusão na cabeça das pessoas. E os nossos leitores e ouvintes já estão confusos o bastante para ouvir notícias mal formuladas.
PS: Agora, procure os erros e imprecisões deste meu texto e me avise. Da próxima vez os corrigirei. Obrigado.
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* Santareno, é jornalista e professor-doutor. Reside em Belém.













4 Comentários Recebidos
13/7/2008 @8:37 am
professor, concordo com o senhor. Sim, um jornalista precisa cuidar mais do vocabulário e preocupar-se em aumentar sua bagagem cultural.
Mas penso que o título desse texto é injusto, porque deveria estar voltado ao jornalismo. Eu encontrei por aí muitas pessoas que mal sabiam assinar o nome, mas que conheciam o mundo melhor que eu, que tenho o segundo grau completo.
13/7/2008 @1:58 pm
Dutra,
Corroborando com suas anotações é interesante ver, como além dos erros que você anotou, que nossos colegas jornalistas da atualidade estão desatenciosos com certas informações e publicam certas barbaridades, provavelmente colando informações catadas aleatoriamente na internet.
Recebi de uma colega, o link de um site local com uma notícia cultural interessante, que foi linkada a partir de outro site de informações regional, a Agência Amazonia de Notícias (www.agenciamazonia.com.br), provavelmente sediada no Acre.
A agência informa sobre um filme que será rodado sobre um ilustre personagem da Amazônia, mas ao citar seus dados biográficos mistura alhos com bugalhos: simplesmente misturou informações de dois famosos Beneditos paraenses, o Nunes e o Monteiro! O primeiro é o filósofo, respeitado e ainda vivo e o segundo é o nosso escritor alenquerense recentemente falecido.
No final da notícia fica a dúvida: afinal o filme a ser rodado é sobre qual dos Benés? Quem descobrir me avise. Leiam a reportagem de Montezuma Cruz no endereço: http://64.233.167.104/search?q=cache:aQcGzUlKjEUJ:www.agenciaamazonia.com.br/index.php%3Foption%3Dcom_content%26task%3Dview%26id%3D2615%26Itemid%3D259+Nunes+fil%C3%B3sofo+filme&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=9&gl=br
14/7/2008 @9:01 am
Dutra,
Tua indignação é a minha. E as tuas colocações remetem a problemas mais profundos, que precisam ser postos em discussão. Quando usamos as palavras, estas adquirem personalidade, peso [estando bem empregadas ou não]. Infelizmente as temos visto e lido de forma que não permitem uma compreensão daquilo que querem dizer ou fazer-nos acreditar.
23/9/2008 @9:19 pm
Concordo plenamente com o tema abordado no texto, e não só com isso, mas também com a difusão de outros temas que permeiam essa questão. Qual seria a raíz deste problema que tem se tornado tão comum em uma classe que deveria ser a “comissão de frente” quando o assunto é lingua (não é necessário justificar este meu argumento, pois já foi claramente exposto no texto do professor Dutra). Este é um problema que precisa ser tratado dentro das salas de aula nos cursos de jornalismo, neste aspecto a comunidade acadêmica tem que deixar de se tornar passiva achando que isso é problema apenas do estudante ou profissional de letras, temos que seguir para um outro patamar, o da transdiciplinalidade dentro das universidades. O bom uso da lingua é um problema de todos! Independente de qualquer área de atuação, conhecer a língua é compreender o mundo que nos cerca e não só compreender mas, transformá-lo.
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