por Paula Hoyos (*)
Ah, a sexta-feira. O dia em que nós, seguidores do tribalhismo e procedentes do malandro equilibrista brindamos a origem da vida, divulgamos o novo corte de cabelo e, de queda, gargalhamos pelas cifras perdidas entre grades e latas de cerveja quente.
Ultimamente tenho acordado deslumbrada nas sextas-feiras. É o dia em que eu bato no peito e brindo à minha liberdade e às piadas dos meus amigos. Afinal de contas, perdi muitos “dias sagrados” da minha vida encolhida em um sofá de meio metro comendo pizza de caixa.
Para a minha sorte, as circunstâncias me tiraram deste sofrimento e nunca mais me fizeram ficar sem graça ao ouvir os comentários sobre a noite anterior – sempre a melhor de todo o espaço sideral – em sábados de almoços com as amigas.
Já parou pra perceber que justamente na época em que finalmente você consegue virar um ser caseiro, todas as suas amigas estão desbravando o mundo, conquistando nações e se divertindo trinta vezes ao cubo por segundo? É o Murphy, meu bem. Mas depois eu falo nele.
Sextas-feiras são assim. Sempre cercadas das melhores maquilagens, roupas, olhares, lugares pra sair. É o dia em que finalmente conseguimos mandar pra bem longe o chefe, o cheque e aquela cobradora do ônibus clone do Frankito Lopes, que sempre consegue te tirar do sério no infinito caminho da sua casa até o trabalho. (…)
É aquela sensação maravilhosa de se estar aproveitando tudo ao máximo, é sentir a jovialidade em cada sopro de brisa. É o meu dia. E do Zeca, do Zé e do seu Oswaldo trabalhar, coitados. Deve ser barra ser garçom.
Tudo é alegoria. Alegria, alegria. Com direito a mentiras sinceras e bêbados gritando “Eu vivo bem sem amar a ninguém”. E viva o oba-oba! Sandálias eletrizantes, hormônios à flor da pele e tímpanos poluídos.
Maravilha.
Hoje é sexta-feira. Atípico dos últimos meses. As coisas mudaram, eu mudei. Fui do céu ao inferno em milésimos de segundos e agora pareço estar nos dois lugares ao mesmo tempo. Na esquina da fossa com a mocidade. Cansada e sozinha em casa. Pensei em ligar pra alguma amiga me fazer companhia. Seria uma distração.
Penso, penso, penso. Desisto da idéia egoísta de estragar a sexta-feira de algum ser amável e solidário. Já basta a minha. Tento ler e acabo assistindo Homem Pássaro comendo batata palha. E assim, como que de relance, me aparecem as Spice Girls sussurrando ao pé do meu ouvido: “Easy lovers, I need a friend…”.
De repente, me deu uma saudade de me retorcer novamente naquela cama de anão. Leve vontade de ter alguém disposto a dividir um saco de pão de queijo de supermercado e conversar sobre astros, geografia, ginástica e a guerra da Bósnia. Me lembrei de como é legal ter um colo e uma companhia para dividir os sonhos, alguns perdidos, outros realizados.
O ruim da boemia é a superficialidade. É estranho ter enjoado tão cedo dela. Claro que amanhã mudarei de idéia. Ah, melhor eu ir dormir.
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* Santarena, é acadêmcia da FIT. Escreve regularmente neste blog.













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