por Erik l. Jennings Simôes (*)
Nasci a 2o26’34’’ ao sul do equador e a 54o 42’28’’ oeste de Greenwich, às 23h30min em um local mais conhecido como Santarém, no estado do Pará, na Amazônia. Em um país chamado Brasil. Esta é minha identidade, meu nicho.
Quando morrer, não quero que mudem uma vírgula do que sou, um grau de onde nasci, nem um minuto do que fui ou vivi. Não admito minha declaração de óbito ser preenchida no horário de Brasília ou Belém. Meu horário de nascer, viver e morrer é o de Santarém.
Em Santarém, o sol esbarra no Tapajós às 17horas e 42 minutos. Três minutos depois ele afunda no rio, para deixar o lusco-fusco das 18h às 18h30min, encerrando, assim, a hora da geral. Hora na qual os pássaros voam, cruzam rios e igarapés para se ajeitarem nos puleiros das árvores. É hora de onça beber água, é hora de peixe liso andar no canal, é hora de arraia parar no remanso.
O que sobra de identidade e orgulho para os bichos e a natureza deste lugar, falta para os homens que nele habitam. Queremos ser Estado, mas abrimos mão do nosso horário real, natural. Povo sem cultura, sem costumes, sem particularidades, é povo sem identidade. É nada!
Enquanto acharmos que tudo que vem de Brasília e Belém é bom, e deve ser copiado, aceitaremos, calados, o roubo de nossas riquezas, morreremos em frente a hospitais inacabados, esperando por ambulâncias que estão paradas há dois anos, sem dar um pio.
Calma, amigo, a saída é adiantar, para sempre, uma hora do seu relógio, ficando igualzinho ao da capital, pois quem sabe assim o socorro não chega logo. Quem sabe assim até o Hospital não abra.
Quando o presidente assinou a lei, igualando o fuso horário do oeste do Pará ao horário de Brasília e Belém, ele sancionou uma mudança profunda nos hábitos e na cultura de um povo sem ao menos consultá-lo. Sua postura, assim como a dos parlamentares que aprovaram o projeto, é de desrespeito aos hábitos e cultura de um povo e de idolatria a economia. É subserviência a emissoras de televisão.
Faz lembrar as velhas, mas sempre atuais, palavras do poeta que em seu refrão, e com sua metralhadora cheia de mágoas, disparou que neste país “te chamam de ladrão, de bicha, de maconheiro. Transformam um país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro.”
A que horas mesmo fecha esse cabaré?
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* Santareno, é médico neurocirurgião.












14 Comentários Recebidos
26/4/2008 @4:58 pm
Mano Erik,
“O segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.”
Tempo é convenção, é relativo.
Tempo é sensação, é sentimento. Um segundo do primeiro beijo é diferente de um segundo de dor nos rins, queira o césio ou não.
Nascer e pôr do Sol, também são relativos, nosso eixo de rotação é torto. Mesmo estando a 2 graus 26’34’’Sul, temos variações de mergulho do sol.
A duração do dia, mesmo marcada pelo relógio, varia em função de nossos ânimos.
Somos escravos e feitores do tempo.
Não o tempo biológico, primitivo, que bem conheces e que nos orienta em função da luminosidade, serotonina, nível de glicose, tesão ou concentração…
Nós, Homo sapiens urbanus, forçamos nosso cérebro a se adequar aos padrões que a vida urbana e em sociedade nos empurra. Dependemos mais do tempo dos outros do que da luz do sol, ou pelo menos somos forçados a isso.
O relógio nos diz a hora de acordar, de dormir, de comer, de fazer cirurgias, de concretar uma viga, de ir ao banco e até de desfrutar alguns minutos contados de ócio com amigos.
O nosso tempo é sempre dos outros.
Horário é convenção, é ordenação, é normatização. horário é organização do tempo e padronização da vida urbana e seus compromissos que tornam a sociedade possível.
Desnecessário te falar isso, mas nosso cérebro busca padrões, necessitamos de padrões, de certezas, de constantes em um universo de variáveis aleatórias.
Precisamos de padrões, de certezas, de garantias, de segurança, como as que peixes lisos, arraias, garças e guaribas tem. Daí o alvoroço dos bichos quando acontece um eclipse.
Já tivemos que mudar tanta coisa em função do que vem de fora que ninguém se assusta mais com uma “horinha” a mais ou a menos.
Mutatis mutandis.
É desnecessário lutar contra essas imposições de regras. Elas sempre existiram e sempre existirão e já estamos todos cansados de correr na direção contrária.
Já nos mandaram cortar zeros para equilibrar a economia.
Já nos mandaram mudar o nome da moeda para salvar presidentes.
já nos mandaram aceitar impostos para melhorar a saúde
já nos mandaram esperar pela abertura de hospitais.
já nos mandaram acreditar que baleias não nadam em rios.
Eu vejo o futuro repetir o passado.
Entre reclamações e elogios, mesmo que as idéias não correspondam aos fatos, o sol continuará se pondo, as guaribas continuarão gritando, e nós continuaremos dependendo de duração de períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133 ou do início da novela das 8.
O tempo não para.
Um abraço!
Aldrwin
27/4/2008 @9:29 am
Nada obstante a indignação contida no excelente texto, daqui a algum tempo todos estarão adaptados e alguns acharão que foi, afinal, uma boa medida. Nada mudará e continuaremos no mesmo marasmo que advém mais da mentalidade antolhada e tacanha da “porralouquice”(ora verde, ora vermelha) do que de uma simples mudança de fuso horário.
De mais a mais, essa estória de que teríamos que ser consultados é “febeapá” petista(com o qual, penso, não comunga o autor) decorrente de seu assembleismo incompetente, do tipo ” vamos consultar o povo da favela (ou da periferia de Santarém) para indagar sobre o que está a necessitar.
28/4/2008 @5:42 pm
Lembram quando, um dia desses, Belterra era um distrito de Santarém? Pois é, um mesmo município com dois fusos. Fuso horário é antes de tudo convenção. O Decreto n. 2.784, de 18/06/1913, convencionou os atuais fusos. Não consta na História que o presidente Hermes da Fonseca tenha consultado o “povo” (já viram decreto ser resultado de consulta popular?) para determinar os horários das cidades que, até então, não tinham o meridiano de Greenwich como referência. O Governo está atendendo, sim, às pressões das emissoras de televisão e outros interesses econômicos, mas afirmar que irá causar uma “mudança profunda nos hábitos e na cultura de um povo”… penso que é menos, um pouco menos.
28/4/2008 @6:12 pm
Oque deveria esta sendo discutido na minha humilde opinião é a origem de tudo isso, que é a medida arbitrária do ministério da justiça em ” escolher”, “decidir” e em que horário oque a população brasileira deve ou não assistir. Vale lembrar que esses que estão ai são fãs declarados de Fidel Castro, ou seja, qualquer semelhança com medidas usadas em Cuba e em outros paises autoritários não é mera coincidência.
28/4/2008 @10:25 pm
Mano Erik:
Deixa eu ver se entendi daqui dos States:
O Valdemir vai começar a cortar a grama do paju mais cedo;
O fabico vai acordar uma hora depois;
O Pedrinho nao tera tanto tempo pra arrumar a mochila;
O Nossa Casa fechará mais cedo;
O meu amigo Efrem Galvao vai perder a hora do pãoç
O meu galo nao sabe a hora de cantar mais.
Mano depois dessa loucura toda, so me resta tentar entender o texto do Aldrwin.
Abraço de caboco
Podalyro Neto
29/4/2008 @1:00 pm
Égua! Que horas que é mesmo???????
“O segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.”
Já vivi mais de quarenta anos entre fusos e horários de Belém e Santarém e não sabia nada sobre o césio (continuo não sabendo), mas ele, o tal de césio vai fazer parte do rol das minhas desculpas para os meus atrasos.
Mano Erik, avisa pros cabocôs que tá saindo a reforma da língua portuguesa e eu já não vou mas perguntar - Égua! Que horas que é mesmo???????
Marco Buro
6/5/2008 @7:30 pm
É importante não se esquecer de que até o início do século XX cada cidade brasileira tinha a sua própria hora, calculada de acordo com a passagem do Sol pelo meridiano do Observatório Nacional. Assim, quando na Capital Federal, Rio de Janeiro, eram 12 horas, em Recife eram 12:33h, em Porto Alegre eram 11:28h, e assim por diante. Este sistema era igualmente usado em diversos países, como nos EUA (hora local calculada pelo Observatório Nacional em Washington), França (calculada em relação ao meridiano do Observatório de Paris), etc. Já houve momentos também no século passado em que a diferença horária de Santarém pra Belém era de apenas 45 min. E no final das contas, todo esse sistema foi mudado.
Ou seja, são tudo convenções! A vida continuará seguindo o seu curso, como sempre fez! Com ou sem “cabaré”!
14/5/2008 @12:40 am
“O tempo tem tempo de tempo ser
O tempo tem tempo de tempo dar
O tempo da noite que vai correr
O tempo do dia que vai chegar”
Ja que temos de aceitar uma imposição, que seja então de uma forma poética
só encontrada na conciência de quem sabe o verdadeiro significado do tempo.
19/7/2008 @10:54 am
RUI PARANATINGA BARATA, que coisa linda, ele ja estava prevendo toda essa briga com o fuso
22/7/2008 @4:41 pm
Boa essa…
Pelo comentários que li, o povo culto que visita este blog acha bem melhor que os outros decidam que horas cada um deve executar suas tarefas e lazer.
Tudo bem que tempo é uma convenção, que tempo é só tempo, e com o tempo todo mundo “pode” até se acostumar. O que eu não consigo aceitar é que isso não seja decidido por mim, se os outros comentaristas acima aceitam, problema deles não é? Afinal, devem ter sido mandados a fazer coisas bem piores, que não posso citar aqui.
Abraços Erick… Belo Texto…
15/11/2008 @10:03 am
Não sabia que tinha nascido a 2o26’34’’ ao sul do equador e a 54o 42’28’’ oeste de Greenwich, mas agradeço a Deus por ter nascido e crescido em Santarém-PA, pois isto fez de mim o que sou.
Atualmente vivo longe de Santarém, mas o meu coração ainda pertence a este lugar. Nem sei calcular a quantos “períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133” estou vivendo longe do Tapajós, mas Eu amava acordar cedo e ir andar “na beira” (hoje o pessoal anda “na Orla”) para ver o sol nascer alaranjado “do lado de lá”, confesso que não sei a que horas era isso, mas garanto que eu amava muito. Não me pergunte também a que horas o “sol se punha”, mas da pracinha do Frei Ambrosio dava até para escutar o barulho de fritura quando o sol “triscava” nas águas do Tapajós. O próprio Deus sentava ao meu lado para apreciar a cena.
Dói na alma a saudade ao lembrar-me da paisagem privilegiada que Eu tinha da janela do Dom Amando. Ainda hoje, quando vou a Santarém, olho aquela escadaria monumental e me vejo olhando pela janela. Quanto tempo atrás foi isso? Foi ontem, grita apressado o meu coração.
Sou um “cabuco pávulo” e saudosista (herança de minha mãe), por isso entendo o desabafo do Erick e as colocações dos outros, assim deixo aqui uma lembrança: as horas ditadas pelo relógio podem ser mudadas via decreto, mas a percepção pessoal do tempo depende exclusivamente do coração de cada um. Quando forem à “orla”, olhem as canoas no Tapajós e elas confirmarão isso.
29/12/2008 @2:45 am
Incrível a vida como ela é. SIMPLESMENTE A VIDA É BELA !!!
Estava em São Paulo, semana passada, na casa de dois Amigos Cabocos Mocorongos, Ana Maria Mattos e seu Esposo Adão Coutinho’. Bem, estávamos relembrando nossa infância e juventude estudantil: Com ele estudei na Escola Estadual de 1º Grau Pedro Álvares Cabral, (foram 10 anos, no Cabral, e quantas vezes escrevi este título numa folha de papel com pauta para iniciar o cabeçalho na época das provas), e com ela estudei no Colégio Dom Amando ( 3 anos de ótimas recordações, também).
Ana Maria me apresenta as músicas da cantora Mocoronga da atualidade Jana Figarella, que já estar cantando na cidade da garoa. Escuto a modinha Égua da saudade, um carimbó suave que nos remente a uma viagem no que há de melhor em Santarém e reforça a vocação de nunca esquecermos nossa Terra Querida, Peróla do Tapajós.
Então, Adão pergunta:
- Horácio, tu tens notícias de Santarém?
- Adão, estive recentente lá, mas quando quero saber notícias eu acesso o http://www.OImpacto.com.br.
Adão retrucou: - Horácio você precisa se atualizar agora tem o blog do Jeso. Te lembra do Jeso Carneiro !!!?
- Sim, claro. Quem não de Santarém não se lembraria dele.
Bem de volta a Natal, aonde moro há 15 anos, eu resolvi acessar o então famoso e desconhecido para mim: o blog do Jesso.
Navegando no blog, deparei com um nome conhecido: Erick Jennings.
Pensei, este caboco é o Erick com o qual estudei no CDA. E li o artigo sobre a mudança do fuso horário. O fuso do cabaré. O que me levou a outra bela jornada em minha memória.
Lembrei-me do único poema que escrivi até agora, quando tinha 15 ou 16 anos. Faz tempo que nem me recordo.
O peoma é mais ou menos assim, pois é ele sempre mutante e atual como o tempo:
O TEMPO
O TEMPO É…
…E SEM DÚVIDA ALGUMA CONTINUARÁ SENDO O DETERMINADOR DE NOSSA PASSAGEM POR ESTA VIDA.
NÓS SEMPRE O ESPERAMOS, E ELE NUNCA NOS ESPERA
A CADA MILÉSSIMO DE SEGUNDO QUE SE PASSA, ELE NOS AFASTA DO NASCIMENTO E NOS APROXIMADA DA ETERNIDADE.
POR ISSO FAÇAMOS TUDO O QUE DESEJARMOS, ANTES QUE O TEMPO PASSE POR NÓS.
——
E AINDA SOBRE O TEMPO TER DUAS AFIRMAÇÕES QUE GOSTO DE FALAR AOS ESTRANGEIROS, ESPECIALMENTE QUANDO SE TRATA DE HORÁRIOS.
G M T (Greenwich Meridian Time) e o
B M T (Brazilian Maybe on Time)
Um forte abraço ao Amigo Erick, e também ao Podalyro.
Parabenizo o Jesso pelo belo trabalho no Blog.
Mocorongosamente,
Horácio Betcel
29/12/2008 @2:58 am
Já que o assunto é o tempo.
Li este arquivo, no link último segundo. notícias.
Achei interessante e apenas copiei para compartinhar a importância do tempo.
“Relógios serão ajustados em 1 segundo na virada do ano
28/12 - 19:56 - EFE
ImprimirEnviarCorrigirFale ConoscoWashington, 28 dez (EFE).- O ano de 2009 começará oficialmente um segundo mais tarde, depois que os relógios do mundo forem ajustados à rotação cada vez mais lenta do eixo da Terra, anunciou hoje o Observatório Naval dos Estados Unidos.
Desta maneira, quando os relógios marcarem, na quarta-feira, as 23:59:59 do chamado “tempo universal”, mais conhecido como meridiano de Greenwich, será somado um segundo.
O observatório, que tem a seu cargo a manutenção do “relógio mestre” do Pentágono, disse que o ritmo de variação da rotação da Terra “ocorre a taxas sempre em transformação afetadas pelas marés e outros fatores”.
“Este é o 24º segundo adicional que se acrescenta ao horário universal, uma escala uniforme de medição do tempo mantida por relógios atômicos no mundo todo desde 1972″, acrescentou o comunicado do Observatório.
“Historicamente, a medição horária do tempo se relacionou com a rotação média da Terra com relação a corpos celestiais e o segundo se definia neste marco de referência”, explicou a instituição.
A invenção dos relógios atômicos definiu um “tempo atômico” de escala muito mais precisa e um segundo que é independente da rotação do planeta.
Em 1970, um acordo internacional estabeleceu duas escalas de medição do tempo: uma relacionada com a rotação da Terra e a outra no tempo atômico.
“O problema é que a rotação da Terra está se tornando mais lenta, de forma muito gradual, o qual requer a inserção periódica de um segundo adicional da escala de tempo atômica para manter ambas as escalas a um segundo uma da outra”, assinalou o Observatório Naval.”
29/12/2008 @6:46 am
Seja bem-vindo, Horácio. Sua presença aqui muito nos qualifica. Um enrome abraço.
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