por Manuel Dutra (*)
A propósito dos três excelentes artigos de Samuel Lima, remeto a seguir trecho de um projeto de jornal-laboratório que estou preparando, no sentido de contradizer, no ambiente acadêmico, o novo senso comum que faz com que, mesmo jornalistas e professores de jornalismo torçam o nariz para aquilo que o impresso representa como elemento de informação, reflexão, cultura e conhecimento diante das novidades diariamente reveladas e mercantilizadas dos ambientes digitais fugazes.
O projeto intitula-se “O Jornal-Laboratório Impresso como Espaço de Pesquisa e Inovação”:
“(…) A cultura escriptocêntrica estaria, então, posta em xeque? Mesmo entusiastas do ambiente digital reconhecem que
Um dos grandes benefícios da Internet é que ela exige a escrita para o seu funcionamento. Esta é uma das diferenças essenciais entre a Internet e as outras invenções que mudaram a gestão cotidiana de nossas vidas como o carro, a televisão, a geladeira e o forno de microondas (Costa 2008).
Segundo Costa (idem), “a Internet é justamente o principal ponto de intersecção do universo eletrônico com o universo impresso, pela centralidade do texto em sua constituição”. Isso se dá contrariamente ao predomínio quase absoluto da imagem na televisão e no universo do vídeo. Na internet, segundo esse ponto de vista, o texto encontrou uma forma não apenas de se reproduzir mais facilmente, mas também de desenvolver algumas potencialidades que permaneciam restritas no suporte papel.
É evidente que, se existe essa proximidade do texto do suporte escritural e aquele do ambiente digital, trata-se de construções diferenciadas, pois disponibilizadas de forma muito distinta. Embora o produtor do texto em papel não possa subestimar essa realidade, cabe a este desenvolver formas novas de produção. E cabe a pesquisadores e professores a tarefa de encontrar novos estímulos à leitura em suporte escritural, pois é no papel que se encontra o acúmulo de conhecimentos que cimentaram o mundo ocidental.
Esse fenômeno envolve tanto o livro quanto o periódico historicamente impresso. Para Muniz Sodré (2008), pode-se trocar de suporte técnico, pode mesmo existir a complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua o jornalismo impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania.
Ainda segundo Sodré (idem), eventuais descaminhos não podem elidir a evidência de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de existência, de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar à Nação a sua face atual – a abolição da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a criação da república. “O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as questões públicas decisivas para os rumos da Nação”, acrescenta o autor, defendendo uma sólida formação universitária do jornalista.
No presente momento, nada ainda parece substituir aquilo que o livro e o jornal podem oferecer: possibilidade de reflexão, análise e interpretação, distante de textos apressados ou textos escriturais apenas disponibilizados na web cada vez mais congestionada de sítios nem sempre confiáveis.
O surgimento de novas tecnologias de comunicação massiva tem levado diversos autores a refletirem sobre o futuro do jornal impresso, de maneira parecida como se refletiu, no passado, sobre o futuro do livro após a massificação da imprensa periódica. É sabido que, no campo da comunicação, a cada tecnologia nova, a anterior é posta em xeque. Não seria diferente com a introdução de novas tecnologias da informação ou da comunicação, notadamente com aquelas cuja matriz se acha no ambiente digital.
Esclarecedor é o pensamento de Alberto Dines (1986, p. 41) a esse respeito, quando ele aborda os “movimentos pendulares” por meio dos quais a história se altera:
O vai-e-vem ritmado e inexorável é, pelo menos, a melhor maneira de representar visualmente a dialética do crescimento-maturação-contenção dos processos históricos, sociais e, naturalmente, da comunicação social.
Talvez esse movimento pendular no campo da comunicação é que esteja colocando à prova o jornalismo impresso, por alguns considerado mesmo coisa anacrônica, embora, para quem assim pense, as novidades tecnológicas do presente ainda não indicam qual o efetivo substituto dessa forma de divulgar a informação. Ao mesmo tempo, se olharmos a história dos media veremos que nenhuma nova invenção desativou a anterior, a não ser que consideremos o pêndulo desde o período do grito e da fumaça do homem das cavernas.
O que se verifica com clareza hoje no referente ao jornalismo impresso, já foi percebido no passado, quando as tecnologias existentes procuraram adaptar-se às novas realidades dos fluxos da informação, tal como o rádio, por exemplo, em relação à televisão. O que se percebe hoje é que o Impresso acha-se como que numa situação de stress, em busca de uma nova linguagem, novos modelos de produção e divulgação de conteúdos que há muito deixaram de esperar o horário do telejornal e menos ainda as 24 horas do jornal impresso diariamente. No Brasil, aliás, o impresso começou essa busca a partir do momento de consolidação das redes nacionais de televisão.
O jornalismo impresso acha-se, neste momento, como que contaminado a partir de sua própria estrutura interna, pela avassaladora penetração de conteúdos disponibilizados planetariamente pela facílima interconexão de redes computadorizadas. Até porque grande parte do processo produtivo do impresso é perpassada pela teledifusão informatizada e por seus equipamentos.
Além do aspecto do confronto tecnológico, da rapidez dos fluxos informativos, as Redações de Impresso, por isso mesmo, passaram a encontrar dificuldades crescentes em produzir a novidade. Neste sentido, a essência do jornalismo, nessa modalidade, foi afetada, sem que ninguém saiba como será a saída.
O que se vislumbra é que uma das saídas será maior investimento em equipes bem preparadas de jornalistas para a produção da novidade exclusiva, da notícia e da reportagem que tragam aqueles fatos ou aspectos da realidade não disponibilizados por outros media. Profissionais competentes e capazes de renovar o texto impresso no inevitável diálogo que este deve manter com o espaço digital, com uma percepção a mais acurada possível da intensa concorrência que se verifica na produção da informação. É por isso que mais necessários se fazem os Cursos de Jornalismo de nível superior na perspectiva como este Projeto propõe. Só a inovação criativa poderá reconstruir as linguagens do impresso, capazes de revelar, analisar e interpretar os acontecimentos com forma e lógica diferenciadas da rapidez empobrecedora dos media eletrônicos (…)”.
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* Santareno, é professor e jornalista.












1 Comentário Recebidos
29/10/2008 @1:25 pm
Grande Mestre,
Uma apreciação elogiosa sua é sempre um grande estímulo para eu seguir em frente. Na realidade, mandei ao Jeso Carneiro um artigo científico publicado na revista Rastros, edição de outubro. Ele foi publicado em partes para ficar dentro do padrão do blog, claro.
Compartilho contigo da belíssima reflexão. Hoje, em Tubarão (SC), estaremos realizando o 3º Encontro dos Jornais Laboratórios, na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). É uma tentativa de compartilhar, conhecimentos e experiências, trabalhando nesta perspectiva apontada por ti.
Depois te mando um relato do encontro.
Abraços fraternos,
Samuca
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