por Josué Vieira (*)
I
Lá pelas tantas da noite um carro corta a rua com seu som, ainda não sei o que fazer para aceitar a proposta do Vicente, desejo moral está longe de responder as intrigas com o meu caminho, por isso parei de fazer Direito, aventurei pela Enfermagem, mas foi nos corredores da faculdade que a vida me fez observa-la de um ângulo mais pratico possível, por isso a cada carro que passa cortando a linha da minha janela são pelas tantas da noite, do dia e da madrugada, e do enfim relógio criado pela minha vontade de estar aqui na janela.
Os vejo longe, objetivos, sem muita frescura e gordura a se perder, são medidos de acordo com as necessidades ainda virem a existir, para mim não passam de ferros retorcidos abastecido de trabalhos clandestinos e desenhados com o fio da navalha da água na boca.
De qualquer forma, para quem espera o longe é a rotina, e os carros são o alivio de quem a tem como relógio, e como um aguardar. Penso em Vicente, tão longe quanto aos carros que acabei de mencionar, mas presente com suas palavras de contrato. Perdi a gênese de nossa amizade, sei que o conheço e espero ele me telefonar, queria ter certeza de que minha espera vá dá algo de útil, mas ela me tirou partes que ainda nem havia percebido que estavam do meu lado.
Concordo quando me diziam que o remanso passa e o que fica é a imagem longe de algo a passar, assim foram a mãe, o pai, aqueles do meu bairro, outros que me cumprimentavam, alguns que me pagaram, os carros, e agora – isso sei! – Vicente. É como Gilma me falou: “rapaz toma tenta junta o que sobra para um dia tu não ficares aqui… sabes que a melhor oportunidade todos querem, mas depois de tê-la, esperam outra. Onde estares, a vontade nunca é abastecida”. (…)
Por isso que ela saia com o mesmo cara! Não se dava conta que a idade também é a que passa, e o que fica é a carne como fantasma e conforto da lembrança. Vicente não é isso, portanto o espero, não há porque repor o que fora um dia provado pelo meu presente, nem também há porque de um futuro se ainda não vi outro carro passar, nem Vicente me ligar, só a Gilma é que lateja em minha cabeça, parece ser o único termo do passado que tenho afeto de lembrar, ainda mais o dia em que ela me entregou a chave deste quarto, mesmo longe ela estar a meu lado, a queria agora, mas foi em outro quarto descansar, “de pulsos abertos, pernas amarradas”, foi o que relatou o repórter.
A noite perdeu o corpo de menina e se tornou mulher, esse era o pensamento do meu pai, ainda completava que ela era a única que merecia o perdão, porque de mãe tinha os filhos da sarjeta, das palavras, das melodias, e das fomes, quando saia para distribuir os carinhos e alimentos, tinha que fazer escondida e rápido porque envelhecia como madrugada, para morrer no silencio das 5, e renascer no clarão das 6, depois ganhar o oficio do dia e a tarefa de ser babá dos contra-cheques.
Meu pai, ele escrevia, depois rasgava, o único poema que carrego, como ele um diz me advertiu, é o do 1 óleo, 3 lata de leite, 2 Kg de carne, 2 de arroz, 4 de açúcar, 2 café, 5 extra-forte e o troco de bombons para as crianças. Meu pai…Acho que vou aceitar, quem sabe consigo coisa melhor, vai demorar isso sei, mas quem sabe me coloca um olhar menos vivido e mais pensado como o carro, Gilma e meu pai, um olhar pensado. Por isso olho para bolsa e para chave. Pra que recado, só me basta atender o telefone…
II
Havia dois dias que ouvira esta história ser contada por um contador do cais, por momentos ainda sou capaz de sentir o clima daquela tarde de um meio de semana e fim de junho. Fiquei curioso e passei pela lateral do motel senti as ondulações do acontecido administrando a atenção. E, por mais que pareça invenção, os moradores das redondezas afirmam ouvir ainda a miséria daquele grito, como é o caso de Dona Marta, moradora de 20 carnavais daquele pedaço. Freqüentadora assídua das tardes dos dias, sentada em sua cadeira preguiçosa, instalada debaixo de uma castanholeira, vizinha do acontecido, e lá, atava-se junto aos ventos recolhendo as fagulhas dos sons, reciclando-as em cores de mais uma tarde.
Mas o que me contou a cuja senhora não foi exclusivamente o poder que aquele grito provocou nos ouvidos, e sim sua estigma de situação, “ sempre fui chegada a algo novo, não me resta muito o que fazer durante o dia, por isso fico a ouvir as noticias, as brigas, e termino meu dia debaixo daquela castanhola que o senhor agora vê”, delongas, delongas, demorou um bocado para até que enfim argumentasse sobre o que se comenta sobre o grito, “senhor, foi absurdo, tudo quanto é olho e ouvido que tem nesta rua se colocou em atenção para saber o porque daquilo”.
Dona Marta me conta que tudo estava indo como de praxe, no entanto: “Fui eu… fui eu!!!”. “Ai, foi um Deus nos acuda, porque ninguém sabia o que fazer, por isso o silencio foi mais um olho naquela situação, sabe, pelo que circulou nas bocas dos vizinhos a figura estava toda pipocada, inchada”.
Sem mais, me contentei em ouvir as especulações de Dona Marta, mas nada respondia minha interrogações, mas vá lá há situações que por si se respondem como tais, assim deixei meus ouvidos acompanharem outras noticias daquela sombra de castanhola. Como a historia, me perguntei, “será que Vicente ligou ?”.
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* Santareno, é escritor e poeta.












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