por Josué Vieira (*)
Lembrando de algumas excursões nos estudo sobre literatura, historia e formação cultural, deparei-me com a modalidade profunda de produção literária criada no século XIX na França por Émile Gérardin, o Folhetim.
Estudos relacionados a sua performance de composição e seu desdobramento social são constantes nas universidades publicas via mestrados e doutorados. Os estudos chamam atenção por seu riquíssimo e constante panorama social de consumo literário, alguns apontamentos vão alem do esperado e promovem uma explanação profunda sobre a formação do gosto literário europeu, por seguinte sua influencia nos modelos de produção artística do cenário brasileiro. (…)
Esses manuscritos dissertativos são comuns atribuírem ao folhetim a primogenese da idéia da telenovela, mas de acordo com Cristina Costa, em seu livro “A milésima segunda noite: da narrativa mítica à telenovela” (2000), publicado pela Fapesp, afirma que a fonte de inspiração do gênero folhetim está nos contos árabes das “Mil e uma noite”, demonstrando pelos conceitos de “conto moldura” e de “gancho”, as historias apresentadas na seção novidade dos jornais emparelhavam-se às contações de historias realizadas por Sheherazeade ao sultão Shariar, e que as interrupções feitas nas historias de folhetim criou uma expectativa, e uma pulsão psicosocial no leitor, na qual ao terminar a leitura o consumidor se sinta capaz de antever o capitulo seguinte e o desfecho da trama, possibilitando a introspecção do gênero como media comum de anseio, esperança e ação social, o mesmo que acontecia com Shariar ao ouvir as historias, assim deixava mais uma noite Sheherazeade viva para que na noite seguinte houvesse o complemento da historia.
Em um artigo anterior (“Eu to pagãno…”) apresentei o Folhetim em sua face social, analisei como o contexto foi propicio para criação deste gênero, e como foi desempenhado seu papel em uma sociedade nascente.
Ampliei os questionamentos interrelacionados de consumo e produção, finalizando com a perspectiva de atribuir ao Folhetim o conceito de metáfora perfeita de uma época de progresso, pois o tempo favorecia este processo, era necessário criar a necessidade, a ânsia, a esperança e seus fluxos e refluxos temporais, e assim domesticar o tempo do operariado, remodelando sua base de trabalho, família e intimidade, para que ele não pudesse reconhecer as marcar feudais e religiosas de sua ancestralidade recente dos campos de produção agrícola, de suas raízes manufatureiras das rendas e artesanatos.
Desse modo, o gênero Folhetim cai no gosto popular do brasileiro, acompanha a passos largos o desenvolvimento daquele do mundo europeu, busca padrões de vida e atribui a despersonalização popular e folclórica com seu passado o “ramo de louro” do progresso. Por que o mesmo que aconteceu na Europa no século XVIII, no Brasil do XIX no fora tão diferente assim, vejo que foi mais impositivo, já que a classe abastarda da colônia ainda era parca e copiosa dos luxos de uma corte foragida de seu trono.
E assim, essas “idades de copia” sempre permearam a historia da formação cultural brasileira, basta lançarmos um olhar mais atento sob os programas humorísticos, e identificar algumas características atribuídas ao Folhetim do século XIX, como modelos arquétipos, historias de fluxos repetitivos, personagens de modos acessíveis à compreensão popular, fugacidade, atemporalidade da situação, intercambio fático e presumível da performance do “narrador” e do “narratario”, e a preservação do local de gênese, ou como queira “meu cariri”. São recorrentes nos programas humorísticos e como eles estão entrelaçados com a contemporaneidade de sua criação.
De precedência o humor sempre foi utilizado como válvula de escape da realidade brasileira, senão conseguia-se dizer por palavras mais formais a verdade de um grupo social, era pelo humor que se fazia panfletarismo das idéias antes subtraídas de seu espaço comum, a ética comportamental.
O humor brasileiro é peculiar, ele é mais escondido, pretensioso, implícito na intenção de se fazer humor, diferente das escolas inglesas, preservadoras de uma perspectiva de humor de tramas e de idéias, muito alem daquele da França em que tenta romper com a idéia de mundo e de ordem, com suas pegadinhas que colocam em jogo o poder da ordem e do social, e muito mais trabalhado do que o humor norte americano que estiliza protótipos de locais, pessoas, modalidades comportamentais ditas “cômicas”.
O humor brasileiro trabalha as três fontes numa perfeição, possibilitando o trabalho de outras características mais intestinais, como: a fome e a situação. Quando falo em fome a metáfora atravessa o alem contexto e vem nos inquirir sobre nossas falhas de ética, educação, de Estado, Instituições, família, amor, gloria, perdão. Já a situação é o “molde”, o “microcosmo” do pretendido, da recorrência, do simulacro de gêneros, pois este advem do presumível.
Assim produzimos um humor atemporal, em que as marcas da fome são identificadas nos locais comum de cada cidadão, possibilitando vários níveis de leitura tanto daquele que conta como do que ouve, havendo, por vezes, uma troca de papeis, uma infiltração de funções de um no outro.
Ocorrendo um paradoxo, que de titulo é o “paradoxo da metáfora de existi”. E nisso, me pergunto: como é possível? Só é possível se a cada historia montada não existir fim, ou certo momento que encerre o desempenho dos envolvidos. Desse modo, ao ouvir as contações de piadas, historietas mais apimentadas deparo-me com moldes de domesticação do tempo e de expectativa do leitor, performáticos na leitura e no local de consumo de Folhetins, como foi o caso daqueles circulantes nos jornais do século XIX, ou hoje, em obras impressas, que na ordem de consumo induzem um padrão de leitura, como ler em casa, sentado, e “recomendável” em silencio.
Certa vez li uma afirmação de um colunista do Estadão dizer, “quando não se há mais nada, haverá o humor”, se lida como uma apelação ao cômico o conteúdo didático da afirmação se demonstra mais peculiar no sentido de modelo de afirmação, propondo que o humor é a salvação para a escatologia do cotidiano. Mas se a afirmação for direcionada, como pretendo, à perenidade da condenação, levando o leitor a crer que depois de passar por vários percalços ainda existe o humor para se transpor como barreira.
Não entro muito no mérito de afirmar que o humor está acabado e fadado a repetição de gêneros, pois nisso terei de me referir aos criadores do gênero, mancharia sua historia, degredaria uma escola que tanto tempo levaram para construí-la, por isso um cala-te boca é melhor que a critica ou o escarninho. Porem posso afirmar: o humor já teve época de ouro, e esse papo de assegurar que a melhor piada ainda não fora contada, é balela, e, ainda afirmo, o humor está num remanso de marasmos e repetições fajutas, diga a Zorra que é total.
Como afirmei o humor brasileiro bebe nas fontes existenciais da condição do individuo frente ao mundo dos encontros e desencontros, das glorias e dos infortúnios, brinca com a fome como fosse irmã cativa da esperança, trabalha a situação na horizontalidade de um certo presumível. Assim, o cômico das terras tropicais estampa as marcas de esquecimentos e venda de entranhas para novos sorrisos que se demonstram inocentes ao primeiro olhar. Mas que por trás de todo o teatro lúdico existe uma maquina de controle comportamental, onde o que vale é seguir as ordens inversas daquelas impressas nos papeis “cômicos”, e seguir uma cartilha de rotinas onde o individuo sorve gotas de civilização.
O humor brasileiro atualmente está esquecendo as origens da fome e imprimindo em suas performances rumos verticalizados pelo padrão capital de consumo, servindo de didática comportamental, de pensamento e de identidade, pois o mesmo que se vive hoje ainda é recorrência das estratégias literárias dos Folhetins onde o “necessário” era exposto em forma de situações do cotidiano burguês do século XIX. Era só uma troca de atores para se conseguir o êxito comercial, e isso não esta sendo diferente do que é apresentando nas telas.
Por fim, posso dizer que o humor brasileiro foi uma estratégia das elites para controlar e outorgar nome aos bois, daquilo que para eles é conhecido como “folclórico”, “exótico”, ou “popular”, e como nós somos sempre performáticos naquilo que consumimos, absorvemos os conceitos criados por tais programas ou historietas cômicas como fosse nossa, nela criamos uma identidade que diverge, mas ao mesmo tempo se encontra com moldes sociais de “individuo” e “sociedade”.
Dessa forma, ao humor recai ao mesmo modelo analítico do teatro grego da Antiguidade Clássica, que servia para os cidadãos da polis como exemplo, um alto reflexo montado para educar as elites locais, onde as conseqüências desses atos influenciaram na constituição de dois propósitos sociais, a arte catártica e a jurisprudência civil. No entanto o humor brasileiro ainda não deixou frutos como foi o teatro grego, mas sim um legado de exploração, onde o que vale mais é aquilo que ainda não foi falado, e quanto mais cores tiver ele é o mais “original” de sua categoria.
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* Santareno, é poeta e escritor. Escreve regularmente neste blog.













2 Comentários Recebidos
30/10/2008 @9:18 am
oi!
eu estou fazendo um trabalho sobre folhetim e, pesquisando no google, encontrei seu blog. neste texto você cita um texto anterior que eu não encontrei, mas gostaria de ler. vc poderia me dizer onde esta, pr favor??!!..
obrigada…
30/10/2008 @9:28 am
Nicolyy, é só vc. clicar na categoria Josué Vieira que terás todos os textos do autor, entre eles aquele que procuras.
Abs
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