por Paula Hoyos (*)
Costumo ouvir de “tias” mais experientes (leia-se mais velhas) - sendo essas casadas, separadas, amigadas ou viúvas – que vou acabar no caritó. Nem sabia o que era isso, mas pela força do hábito repetia que estava lá, no tal do caritó. Até o dia em que surgiu o questionamento.
Oh, céus! Será caritó uma comunidade longínqua no sertão árido do Nordeste??? A tal palavra nem estava no dicionário e isso sinalizava que a coisa estava feia pro meu lado. Até que das profundezas do mar sem fim, tive a brilhante idéia (eureca!) de fazer o que sempre faço: jogar no google, meu bem.
Eis que me deparo com este deleite. Um texto datado de 1959, da extinta revista Cruzeiro – publicação a qual eu só ouvi falar – da escritora Rachel de Queiroz. O bacana mesmo de encontrar pérolas como essa é que a gente pode perceber que algumas coisas no mundo não mudam.
Em pleno século XXI, minhas tias continuam achando que estou no caritó porque tenho 26 anos e não casei ou sofrem com a incompreensão de pensar numa “menina tão inteligente e bem educada” que ainda não conseguiu “laçar um bom partido”.
Bem, Rachel, concordo com você. A gente hoje põe o pó na cara não só para ir à janela a procura (ou à espera) de um bom partido. A gente enche a cara de maquiagem porque fica mais bonita ou pelo menos pensa que fica. E porque além desse detalhe que inflama a alma das mulheres com o pecado capital preferido do capitalismo, a vaidade, nossa make up tem vitamina e filtro solar. Tá, meu bem?
Resumindo: ainda vale a máxima de que as meninas boas vão para o céu. E as más, as que têm gingado nas cadeiras e malícia na cabeça, vão para onde quiserem. (…)
Aí vai o texto para quem quiser saber o que a modernosa Rachel de Queiroz tem a dizer sobre o caritó!
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“E tira o pó, Vitalina,
Bota o pó, Vitalina,
Môça velha não sai mais do caritó”
(cantiga popular)
Vitalinas
Da Bahia para o Sul, pouca gente saberá o que é vitalina e o que é caritó. Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a môça-velha que se enfeita - bota pó e tira pó - mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.
As cidades grandes já hoje quase desconhecem essa relíquia da civilização cristã, que é a solteirona, a donzela profissional. Porque, se hoje como sempre, continuam a exisitir as mulheres que não casam, elas agora vão para tôda a parte, menos para o caritó. Para as repartições e os escritórios e os balcões de loja, para as bancas de professôra, e até mesmo, Deus que me perdoe, para êsses amôres melancólicos e irregulares com um homem que tem outros compromissos, e que não lhes pode dar senão algumas poucas horas, de espaço a espaço, e assim mesmo fugitivas e escondidas.
De qualquer forma, elas já não se sentem nem são consideradas um refugo, uma excrescência, aquelas a quem ninguém quis e que não têm um lugar seu em parte nenhuma.
Pela província, contudo, é diferente. Na próvíncia os preconceitos ainda são poderosos, ainda mantêm presa a mulher que não tem homem de seu (o “homem de uso”, como se chama às vezes ao marido…) e assim, na província a instituição da titia ainda funciona com bastante esplendor. E o curioso é que raramente são as môças feias, as imprestáveis, as geniosas, que ficam no caritó. Às vezes elas são bonitas e prendadas, e até mesmo arranjadas, com alguma renda ou propriedade, e contudo o alusivo marido não apareceu. Talvez porque elas se revelaram menos agressivas, ou mais ineptas, ou menos ajudadas da família na caçada matrimonial?
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Não sei o que dirá disso a moral tradicional, mas creio que, felizmente, a existência da vitalina, mesmo na província, já anda perto do fim. A instituição da “môça livre” ou da “mulher de carreira”, segundo os modelos da América e da Europa, já tão bem copiada no Rio e em São Paulo, é uma tentação muito grande.
Qual a môça que tendo possibilidade de viver do seu emprêgo, no seu próprio apartamento, onde, se lhe falta o aconchego do marido, restam sempre os consolos da liberdade, qual a môça que escolherá viver de favor em casa do irmão, sob a tirania da cunhada?
Será um mal a substituir outro, dirão. Pois bem nenhum sairá dessa nova liberdade. A isso não respondo, que não sei: o que posso dizer é que será, de qualquer jeito, um mal muito menos melancólico.
Para ler na íntegra, acesse: http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/19091959/190959_7.htm
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* Santarena, é universitária. Faz Marketing e Publcidade. Escreve regularmente neste blog.













2 Comentários Recebidos
30/5/2008 @12:00 am
Não se preocupe se você vai ficar no caritó ou não. Essa pressão, no caso das tias, de empurrar alguém para o casamento sempre acaba mal. Estão aí os incontáveis casamentos que não chegam nem a 12 meses. Tudo bem que é um contrato, mas entre casar porque alguém está achando que você ficará no caritó ou por interesse financeiro, como a maioria das meninas hoje pensa assim, fique solteira, com o dinheiro de seu trabalho, dona de seu nariz, ou seja, com liberdade para viver feliz. Coisa que nem sempre o casamento traz.
23/7/2008 @6:32 pm
nossa é uma crônica, crítica ou desabafo?
independente do que seja o século XX ja nos dá essa possobilidade, solteira, independente e educada
da forma como caminham as coisas está todo mundo solteiro, elas estao mais seletivas….. e eles tambem….. ela exige muito, ele nao sabe o que quer
um beijo paulinha
adorei o texto
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