por Josué Vieira (*)
Por um lado seria até bom que algo caísse sob a cabeça, ou situação maior o levasse a morrer por alguns minutos para que pudesse se desprender do que possuía de útil – como julgava imprescindíveis as coisas pequenas em sua volta! Mas nada acontecia, nem mesmo um aviso de morte anunciava o dia do fim.
O infortúnio maior era ter a perspectiva de morte como conforto; vicio de pensamento, senão continuasse a pensar nas possibilidades boas que ela poderia trazer em sua aba de casos, o mesmo dia, a hora e o local seriam anunciados na rotina dos fatos como situação modelo, com isso voltaria a estaca zero dos desejos.
“Uma faca ! Pelo amor de Deus… me dê uma”, timbrou em minhas memórias se isso aconteceria comigo, como acontecera com Valberto. Mas não, esperança em mim suspirava, fazia com que deixasse de lado a preocupação com a repetência do fato, para vislumbrar algum advir dos mais graves a acontecer com aquele, que desde o dia em que o vi desejei-lhe sorte e ao mesmo tempo mazela para consigo.
E se um dia isso se tornar real o melhor que posso fazer é guarda comigo as horas de petição aos santos, e me gloriar das ajudas desprendidas às paróquias, aos terreiros que eu freqüentava durante todos esses anos de esperança. (…)
Ele… nem se quer me deu uma palavra, nem a queria. Para que? Para um dia ter pena de que havia me cumprimentado, para depois colocar o peso em minha consciência, arrependendo-me do que almejava todos esses anos, me corroendo com as duvidas existências sobre meu caráter e perspectiva moral de vida. Por isso que sempre me fechei para ele. Toda vez que passava ao seu lado fazia que nem era comigo que aqueles olhos fitavam com curiosidade. Isso sim era maneira sábia de dizer cala boca, ou assim para nós, um fecha-te olhos.
Olhos. Sempre os tive como referencia, quando direcionava aquela metralhadora, tinha que fazer algo para que sua rajada não me atingisse, mas não dava outra, os estilhaços que ela provocava ao redor era de tamanha atenção que não havia como deixar que passasse em branco o que fizera. Teve uma vez que saindo do banheiro, ele encontrou o André com um copo de café no corredor, perguntou alguma coisa e depois se retirou para sua sala. Doze minutos foi o tempo daquele espaço dizer adeus ao 365 do Departamento Pessoal. Nesse dia foi um reboliço no prédio, os por quês se avivam entre a multidão lá em baixo em volta do corpo caquético do ultimo arquivista contábil que esta empresa contratará, e pelo que me consta a vaga ainda continua um tumulo.
Bem que de mortes a vida se povoa de charme, nunca vi historia feliz que não tivesse um suspense para emocionar o pagante das paginas fugidias ou para provocar a salivação de terceiros. É bom ter um cheiro de putrefação em nossos perfumes, como um morto para latejar na retina, desmembrado a rotina de encontrar os responsáveis, e assim vivermos como os mortos a procura de lapides, datas, memoriais, e saudades. Tudo é útil na gana de solidão, por isso a morte preenche o espaço da minha viuvez, da timidez com a Marilda, as horas de trabalho e o anunciado desaparecimento daquele.
Não consigo disfarçar a vontade de agarrar aquele pescoço e torce-lo até o esfarelamento, sei que posso morrer antes dele, e o motivo, a vontade de morte, mas antes que isso aconteça tenho que tomar alguma providencia com os outros corpos do meu quintal, que frondosos ficaram alimentando o cajueiro, ingazeiro e a pitombeira. Sinto cheiro de morrer, a cada olhar me direcionado é um querer em potencial pedindo as digitais do meu crime. Por isso ele pede, ele quer, não reage com vergonha ao pedir olhando com um ar de autoridade desgastada debaixo de um paletó barato.
Hoje sei que vai dar, isso tenho certeza, depois de limpar a bunda com este papel ordinário que me provoca arrepios, lavar as mãos, tudo pode acontecer. Sei que Marilda vem em minhas ventas, pode ser amor? Nunca me questionei. Fora pensamento, fora pensamento, não posso fazer o serviço de pau duro. Uma punheta, punheta a solução, mas depois. Tenho que sair deste banheiro.
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* Santareno, é escritor e poeta. Escreve regularmente neste blog.












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