por Cristovam Sena (*)
Existem temas que são recorrentes nas discussões que se estabelecem entre os internautas. Dentre eles destaca-se o tema cultura, agora mesmo posto na pauta do dia em função da festa do Sairé que terminou com a vitória do Boto Cor de Rosa, conhecido como boto vermelho antes do Jacques Cousteau.
Para orientar as discussões futuras, seria interessante que quem “manda” no Sairé nos informasse se a festa daqui pra frente será tratada por eles como atividade cultural ou de entretenimento, pois há diferenças entre os dois conceitos.
É sabido que todos devem ter livre acesso à cultura, que deve ser incentivada nos seus mais variados ramos pelo aparato governamental, com investimentos sem fins lucrativos. Já o entretenimento deve ser encarado como negócio, tanto que já existe o Curso de Direito do Entretenimento da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, que “destina-se ao aperfeiçoamento de profissionais do Direito quanto às questões trazidas pelos novos meios de comunicação, pelo crescimento dos espaços de lazer e das novas tendências da economia baseada na criatividade e os mecanismos administrativos e judiciais que assegurem o direito a autores, intérpretes, artistas, esportistas”.
Hoje a indústria do entretenimento passou a ser um componente importante para atrair o consumo, gerando renda através das oportunidades de negócios por ela criados. Sendo o entretenimento tratado como negócio, quem nele se mete tem a obrigação de saber que pode ganhar ou perder dinheiro. Para isso, existem os promotores de eventos, profissionais que trabalham visando o lucro para suas empresas, sabendo que eventuais prejuízos não podem ser repassados para os bolsos dos munícipes.
A mistura do Sairé com os botos e os shows de artistas importados se transformou num verdadeiro “Samba do Crioulo Doido”. O Sairé original, com todo o seu simbolismo, foi devorado pelo consumismo do entretenimento que atraí o publico pelas alegorias, o brilho das fantasias e a fama dos artistas.
Assim, assistimos os governos municipais negligenciarem os investimentos em cultura, preferindo os questionáveis gastos com as festas de entretenimento. O importante é que há calendário disponível, espaço e público em Alter-do-Chão para as duas atividades, sem necessidade de se amesquinhar o Sairé.
Bom tema para um debate que poderia ser conduzido pelo município através das Coordenadorias de Cultura e Turismo.
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* Santareno, é engenheiro florestal. E diretor da Instituto Cultura Boanerges Sena.













6 Comentários Recebidos
25/9/2008 @8:50 am
Parabéns querido Cristóvam Sena. Sou solidário a você e à sua tese. Quem ama cultura, com ela se preocupa. Entendo que já houve uma “evolução” de mistura entre cultura e turismo, no entanto se não preservarmos a primeira, a segunda também fica comprometida. Pela tese turística, entendo que Alter-do-Chão não pode depender unicamente do Sairé, porque este, historicamente, jamais dependeu daquele. Cultura gera aprendizado e entendimento sobre as ocorrências do hoje real. Cristóvam, viva a sua história!
25/9/2008 @10:11 am
Se não estiver enganado foi em 1992/93 que presenciei, como jurado, a uma disputa de Botos na Amazônia.
Obviamente não foi em Alter do Chão, pois acredito que naquela época a disputa entre os botos não existia.
Eu morava no Amazonas e trabalhava na calha do Rio Negro, onde Novo Airão era um dos Municípios que entrava na minha rotina de trabalho.
Era a época que o Boi de Parintins começava a extrapolar a sua dimensão local, e seu sucesso, além de nacional, estava se tornando internacional.
Era também a época que os Governos Federais e Estaduais começavam de verdade a “patrocinar” com “força” os eventos culturais.
Lembro que naquela época apareceu uma legião de “vendedores de projetos”, que atrelados aos políticos, varriam todos os municípios estimulando os prefeitos a “inventar eventos culturais” para poder acessar ao dinheiro público e de quebra, se tiver sucesso, aos patrocínios privados.
Embalados com o sucesso dos Bois em Parintins, e ao invés de estimular o que já existia na cultura local, o modelo do Boi tornou-se uma febre que se alastrou ao longo da calha dos rios Solimões, Amazonas e Negro. Até porque tudo se tornava mais fácil, era só trocar os Bois por uma par de Botos, ou um par de Tribos, etc. e a magica estava feita.
Em Novo Airão (como nos demais municípios) o Prefeito entrou nessa, e aproveitando do fato que no município o Boto Cor de Rosa era o bicho mais comum a ser visto, resolveu organizar, de forma experimental, em pleno estilo Parintins, a primeira Festa dos Botos. Obviamente para não cair do nada, aproveitou-se de uma festa tradicional, e mudou-se as datas para evitar sobreposições com outras festas.
Enfim foi desse jeito que pude apreciar a minha primeira festa dos Botos.
Obviamente a festa foi um fiasco, e depois de ter sido repetida durante dois anos, acabou sendo abandonada e esquecida.
Mas acredito que “alguem” deve ter comprado (copiado) essa brilhante idéia e trazido ela para essas bandas.
E por aqui, pelo jeito, pegou mesmo!!
É só para dizer que concordo totalmente com a sua reflexão Cristovam.
Tiberio Alloggio
25/9/2008 @10:33 am
Muito boa a intervenção.
Depois de tantos questionamentos, entendo ter chegado o momento da Festa do Sairé se separar do Festival dos Botos (com a inclusão dos shows musicais).
Só para os mais entendidos deixarem de questionar.
Uma coisa é certa: a Festa do Sairé, ao longo dos anos, somente despertou a atenção dos moradores mais tradicionais da vila e de pesquisadores. Foi assim ao longos dos anos.
Hoje, entendo que o Festival dos Botos deve cumprir a sua trajetória, com todo o seu apelo mercantilista. Foi para isso que ele foi concebido, e assim se revelou um sucesso de público. A lenda do Boto deu certo. Deve dar certo, especialmente num lugar tido como encantado, repleto de belezas naturais.
Aí, o público pode ser decidir ou em acompanhar os as ladaínhas e o simbolismo dos antigos moradores de Alter do Chão ou o folclore, com todo o apelo de luz e cores.
Portanto, que o Sairé seja uma coisa e o Festival dos Botos seja outra.
25/9/2008 @2:41 pm
O que seiria o Sairé ou Çaire? Somente a festa dos mastro, o espanta ção, as ladainhas, o tarubá e demais bebidas tipicas? Isso realmente acho que somente desperta a atenção dos moradores mais tradicionais da vila e talvez de alguns pesquisadores.
25/9/2008 @3:08 pm
“Somente” que o anonImo das 14:41:54 fala, tem mAis de 300 anos. QUER MAIS?
25/9/2008 @10:36 pm
O destino, com luz divina, sem qualquer plano prévio, nos presentou com natural encontro familiar, numa cidade com mais de 13 milhões de habitantes… Ratifico homenagens ao amigo Cristóvam Sena, defensor natural da nossa pérola.
Roberto Vinholte
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