por Samuel Lima (*)
Recentemente estive ministrando uma oficina de mídia, no I Seminário de Atendimento ao Egresso (do sistema prisional), organizado pelo Centro de Direitos Humanos de Joinville (CDH). O pequeno grupo que trabalhou comigo, composto em sua maioria por profissionais do serviço público municipal e voluntários, colocava a questão da dificuldade de lidar com a imprensa.
O tema, em si, transita nestas muitas áreas de sombras que envolvem o “mundo mídia”. Lá, o reflexo de uma sociedade desigual, dividida em classes, orientada pelo “deus mercado”, se faz sentir, às vezes dramaticamente.
Nota-se, num breve olhar, o reforço de velhos preconceitos – por exemplo, as entidades de direitos humanos se ocupariam da defesa de “bandidos” – ao desprezo puro e simples com uma parte da população que, sob o foco das leis vigentes, cumpre algum tipo de penalidade nas casas de detenção.
Tal desprezo se materializa através da in-visibilidade. Se para as comunidades empobrecidas os espaços impressos e/ou eletrônicos da mídia são escassos, especificamente aos egressos do sistema prisional eles simplesmente inexistem, exceto quando atendem à lógica sensacionalista que orienta as coberturas dos conflitos e tentativas de fugas.
O mesmo tipo de lógica embala a cobertura policial cotidiana, longe dos presídios e delegacias. Um caso recente nos permite um olhar comparativo atual e pertinente. Igor Giovani, 12 anos e seu irmão, João Vitor, 13, foram mortos (asfixiados, queimados e esquartejados), no dia 5 de setembro, em Ribeirão Pires (Grande São Paulo). Os maiores suspeitos são o pai dos meninos, João Alexandre Rodrigues, e a madrasta, Eliane Aparecida Rodrigues.
Igor e João Vitor tinham o mesmo direito à vida que a menina Isabella Nardoni, supostamente morta pela madrasta e o pai. O tamanho da repercussão dos dois casos na mídia revela o viés de classe que orienta pautas e coberturas. A origem dos pequenos Igor e João era a periferia da metrópole paulista; seus pais igualmente humildes (vigia e doméstica). (..)
A menina Isabella, de classe média alta, era filha de um consultor jurídico e sua madrasta, estudante de direito. Mas será que só isso explica a diferença tão gritante de repercussão? O caso de Isabella ficou pelo menos um mês, em rede nacional; o dos pequenos de Ribeirão Pires passou quase em branco, exceto por uma ou outra matéria nos diários impressos paulistas.
É do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva uma pergunta crucial: “É a mídia que determina o grau de curiosidade e audiência por determinados assuntos e não outros ou é o interesse dela que coloca em ordem a prioridade dos meios de comunicação?”.
A questão é complexa e merece uma reflexão profunda. É inegável o poder de “agendamento” que a mídia tem sobre os assuntos que fazem parte do nosso cotidiano. Não o considero absoluto, mas está posto no jogo político e social.
“Os assassinatos de Isabella e de Igor e João são humanamente do mesmo tamanho. Mas mídia e público os tratam de modo diferente”, constata Lins da Silva.
Entre o visível e o in-visível, o olhar da mídia reflete a divisão de classes, a chaga da exclusão social que é traço inerente da sociedade contemporânea.
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(*) Docente e coordenador do curso de jornalismo do Bom Jesus/Ielusc, em Joinville (SC). É doutor em Mídia e Teoria do Conhecimento pela UFSC.












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