por Samuel Lima (*)
Considerações finais
A discussão sobre o futuro da mídia impressa nos leva a uma constatação: estamos no limiar de um mundo de notícias caótico e fraturado, à base de uma informação – não necessariamente jornalística – altamente perecível. Nesta galáxia informacional, incessante e frenética, na visão de Alterman (10/06/2008), há “mais diálogo e menos jornalismo de primeira qualidade”. O jornalista alerta, veemente: “A transformação dos jornais – de empresas dedicadas à reportagem objetiva em feixes de comunidades engajadas com suas próprias ‘notícias’ – significará a perda de uma narrativa nacional em torno de ‘fatos’ consensuais”.
Nas páginas dos jornais, há mais que fragmentos do real. Pululam histórias humanas que não seriam contadas em qualquer lugar, basicamente não seriam publicadas se não houvesse uma organização dedicada a tal fim. Em última análise, temas e pautas que jamais fariam parte do nosso consciente social.
Eric Alterman sugere um simples teste, que ele experimentou escolhendo uma data ao acaso para avaliar o conteúdo impresso no The New York Times (11/02/2008). Ele relata: “Além das notícias que eu poderia encontrar em qualquer lugar – Obama vencendo Hillary de novo, Bush tentando condenar à morte prisioneiros de Guantánamo – a primeira página do Times trazia matérias sobre a violência étnica no Quênia; um artigo sobre o avanço das universidades americanas no Qatar; ou ainda um estudo da Corporação Rand, em reportagem de Michael Gordon, que criticava a atuação de Bush no Iraque. Diz Alterman (10/06/2008): “A justaposição desses tópicos díspares forma um terreno comum a todos os leitores do jornal e uma imagem do mundo que todos habitam”.
Do ponto de vista dos cenários ou estratégias de negócios possíveis, Meyer (2007) vai indicar dois cenários possíveis aos players do setor. Citando os estudos do analista Michael Porter, o jornalista escreve:
Cenário 1. Os atuais donos espremem a galinha para manter a lucratividade hoje, sem se preocupar com o longo prazo. Essa é a estratégia “pegue-o-dinheiro-e-corra”. Neste cenário, os donos aumentam os preços e simultaneamente tentam manter sua rota de lucratividade com as técnicas usuais: diminuir espaço editorial, cortar pessoal, reduzir a circulação em áreas remotas ou de baixa renda e menos interessantes para anunciantes, manter baixos salários (MEYER, 2007, p. 49).
Pode funcionar, por algum tempo, mas tem vida curta. Mas, Meyer vê um segundo cenário, que em termos estratégicos poderia conectar a mídia impressa e a on-line, potencializando ambas:
Cenário 2. Os donos atuais – ou seus sucessores – aceitarão a realidade da nova competição, investirão no aprimoramento de produtos que explorem totalmente o poder da mídia impressa e transformarão os jornais em grandes players num mercado de informação que inclui a mídia digital. Isto segue o conselho de Potter: “Em vez de ver o substituto como uma ameaça, é melhor vê-lo como uma oportunidade”. O movimento dos jornais em direção à divulgação de notícias e anúncios pela internet é um bom exemplo, porque explora a experiência do jornal em criar conteúdo num novo meio de divulgação (MEYER, 2007, p. 50).
Neste último cenário, Meyer (2007) prospecta e projeta um futuro possível, no qual possam brilhar as duas mídias. A despeito de todos os fatores culturais e históricos da formação do sentido de nação e identidade social, apontados também por Eric Alterman (citando a obra de Benedict Anderson, “Comunidades Imaginadas”), há algo de precioso que pode constituir um elo, uma perspectiva às duas modalidades de jornalismo aqui discutidas: a prestação de serviços à sociedade, marca que vem colada n’alma da mídia tradicional tipificada nos jornais diários, há mais de trezentos anos.
É este resgate, conectado a um esforço absoluto de qualificação de seus produtos, que pode indicar outro caminho possível ao velho e bom jornal de papel. Um horizonte estratégico no qual os diários impressos possam trabalhar sobre o sólido paradigma composto por influência social e credibilidade. Um horizonte balizado também por uma regra essencial do jornalismo, em qualquer suporte tecnológico: procure a verdade e a publique. É fato consumado: sem o paradigma da verdade, como substrato deontológico, nenhuma empresa jornalística conseguiria conquistar alguma influência.
Numa perspectiva complementar, Lins da Silva (08/04/2008) indica outra condição de relevância da mídia impressa, que dialoga essencialmente com os conteúdos jornalísticos produzidos para o ambiente digital: “A melhor qualidade da informação e do texto é o grande diferencial competitivo (para usar o jargão mercadológico) que o jornal impresso tem em relação a todos os seus concorrentes. Nem internet, nem blog, nem rádio podem dar ao consumidor essa qualidade superior”.
AQUI você ler a Parte I; AQUI, a Parte II; AQUI, a Parte III; AQUI, Parte IV;
Referências bibliográficas
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CHAUÍ, Marilena. Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo: Perseu Abramo, 2006.
DORNELES, Carlos. Deus é inocente – a imprensa, não. Rio de Janeiro: Globo, 2002.
LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. A sobrevivência dos jornais impressos, 08/04/2008. Disponível em www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=480IMQ003, 08/04/2008. Acessado em 09/04/2008.
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MARTINO, Luiz C. (org); BERGER, Charles R.; CRAIG, Robert T. Teorias da Comunicação: muitas ou poucas? Cotia, SP: Ateliê, 2007.
MEYER, Philip. Os jornais podem desaparecer? Como salvar o jornalismo na era da informação. São Paulo: Contexto, 2007.
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Sites Consultados:
Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) – Pesquisa TIC Domicílios 2007, disponível em www.cetic.br, acessado em 8/04/2008.
Comunique-se – www.comuniquese.com.br, acessado entre janeiro e agosto de 2008.
Observatório da Imprensa (OI) – www.observatoriodaimprensa.com.br, acessado entre janeiro e agosto de 2008.
Entrevistas ao Autor:
MICK, Jacques. Entrevista ao autor, concedida via e-mail. Florianópolis, 22/04/2008.
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* Santareno, é docente e coordenador do curso de jornalismo do Bom Jesus/Ielusc, em Joinville (SC). É doutor em Mídia e Teoria do Conhecimento pela UFSC.













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