por Samuel Lima (*)
Introdução
Manhã de um incerto dia de abril de 2014, numa bucólica cidade americana.
No expositor da padaria o último exemplar de um jornal diário é exibido, como se fosse um dinossauro midiático. Esta é uma das previsões das pitonisas para o futuro do jornalismo impresso, entre as bênçãos do mercado e o determinismo como religião, forjada no altar das novas mídias. A base está em Meyer (2007) que indica uma queda do número de leitores em torno 0,6 por ano.
Para começar esta reflexão, ainda no terreno das previsões, é necessário resgatar algo mais consistente: Meyer (2007), relacionando os vetores da confiança e do hábito de leitura, baseado em dados de pesquisa empírica, faz outra projeção. A análise do hábito de leitura, por exemplo, partindo do ano de 1960 (quando o percentual era superior a 80%), cai a uma taxa atual de 0,95 ao ano. Para o autor, sem nenhuma ação de parte da indústria dos jornais impressos que reverta o quadro, não haverá mais leitores de jornais diários, no primeiro trimestre de 2043.
De partida, já ganhamos quase três décadas de fôlego antes do fim previsto nos manuais das consultorias americanas. Meyer (2007) constata ainda que “a queda do número de leitores foi levada a sério pela primeira vez nos anos 1960, quando novas fontes de informação começaram a disputar, com sucesso, o tempo do tradicional leitor de jornais. A competição criada pela tecnologia foi iniciada muito antes de se falar na supervia da informação” (MEYER, 2007, p. 48). A diagramação digital barata e a impressão computer to plate (CTP) levaram ao crescimento explosivo de produtos impressos segmentados capazes de atingir o público almejado pelos anunciantes.
Com efeito, a atenção do distinto público leitor, cada vez mais escassa, na sociedade contemporânea, continua a ser a commoditte mais preciosa do jogo midiático. Mas, o problema fundamental, no caso do jornalismo impresso, é gestar a transição de uma indústria acostumada com margens de 20 a 40% de lucro para uma realidade em que estes números se estabilizem entre 6% ou 7%, resultados que outros setores da economia têm como parâmetros normais.
Como contexto mais geral, há um elemento indispensável, colocado a priori: “O ideal da informação desde o século XVIII – saber de tudo, imediatamente, para todo mundo – virou realidade em menos de trinta anos, pelo menos nos países democráticos” (WOLTON, 2004, p. 283). Mas, no momento em que se realiza, na visão do autor, o sonho se desmancha: a lógica da informação torna-se simples demais em relação à complexidade da história e as “perturbações” criadas por esse tipo de informação, emanadas do vasto mundo virtual, aumentam tão rapidamente quanto suas performances.
Wolton (2004) considera ainda que essa espécie de vitória política da informação transformou-se num verdadeiro “bombardeio informativo”. Sobre a natureza da informação, como insumo básico deste alvorecer de século XXI, ele escreve com ênfase: (…)
A informação é onipresente e resulta em uma tirania do instante. Sabe-se tudo, de todos os cantos do mundo, sem ter tempo de compreender ou retomar o fôlego, e sem saber, finalmente, o que leva a melhor entre o dever de informar, a loucura concorrencial e o fascínio pela técnica, ou essas três coisas ao mesmo tempo (WOLTON, 2004, p. 284).
Na ponta final desse tecido imaginário, na chamada era da informação, subsiste um estranho paroxismo que embala a peleja do impresso contra o dragão digital: “A informação não se reduz mais ao relato do acontecimento. Embora se possa ver tudo, não se pode entender tudo. A proeza não é mais ter acesso ao conhecimento, mas entendê-lo. O excesso de informação mata os fatos e a compreensão deles” (WOLTON, 2004, p. 286).
Noutras palavras, voltando a Meyer (2007), o novo problema está no excesso de mensagens, que ultrapassa radicalmente a capacidade do público de apreendê-las. Neste front, brilham algumas luzes a pavimentar um caminho de futuro aos jornais.
A aposta de Meyer (2007) é na alta qualidade que a mídia impressa precisa (deve e pode) alcançar, na medida em que isso “conquista mais confiança do público para o jornal, e não apenas aumenta o número de leitores e a circulação, como também influencia os anunciantes a decidir a quem querem associar seu nome” (MEYER, 2007, p. 31). O autor correlaciona credibilidade e lucratividade, ainda que seja fundamental ponderar que não há uma relação de causa-efeito determinista em jogo, mas possibilidades que compõem o quebra-cabeça de uma solução complexa.
O fato é que os jornais, com uma história de quatro séculos, como bem escreve Lucena (FSP, 08/06/2008), “condensam uma credibilidade difícil de ser replicada em outros meios e funcionam como uma bússola para o leitor imerso” no caos informacional caracterizado por Wolton (2004). O diferencial a ser explorado a fundo, tomando-se essa visão de Lucena, é aparentemente óbvio, na medida em que os jornais impressos “apresentam um resumo organizado das notícias mais importantes das últimas 24 horas, selecionando e hierarquizando fatos, análises e opiniões” (LUCENA, 08/06/2008).
A editora-executiva do diário paulista arremata: “Numa sociedade extremamente desigual e cada vez mais preocupada com o bem-estar em escala privada, os jornais colocam (ou pelo menos deveriam colocar – grifo meu) foco sobre o interesse público. Têm a tarefa de fazer uma reflexão cotidiana sobre a realidade (a questão é uma só: estão fazendo? – grifo meu). É o seu papel e o seu futuro” (LUCENA, 08/06/2008).
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2 Comentários Recebidos
26/10/2008 @2:15 pm
Uma contribuição à pensata do professor:
o site do jornal Zero Hora publicou ontem o discurso de William Powers (escritor do artigo “Hamlet’s Blackberry: Why Paper is Eternal”), durante a 11ª Conferência da Associação Mundial de Jornais, evento ocorrido semana passada em Amsterdã.
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2265596.xml
26/10/2008 @11:55 pm
Olha está claro por que o pessoal do papel pintado está quase na juquira, eles são extensos demais que chegam a ser chatos em suas matérias, esse doutor deveria escerver isso num jornal, mas para um blog, me descupe doutor dê uma enxugada, me parece que você ainda não entendeu ou não quer se render aos novos tempos da informação,coisa muito grande não explica e deixa o leitor achando que o senhor está ultrapassado.
Você tem que dizer muito em poucas palavras, a Internet é abarrotada de textos,a linguagem acadêmica torra a paciência.
Deixe de lado esse formalismo e nos faça feliz, pois vejo que tens coisas novas pra dizer, mais assim não da meu cumpadi, é ralado, se lecionas comunicação reveja suas escritas são carregadas de de formalismo acadêmico desnecessário para um blog que tem pressa pra informar, me perdoe mas não vou ler seu texto!!!!!!
Leitor de de Blod, jornal é coisa do passado…
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