por Samuel Lima (*)
A internet vai acabar com os jornais?
Menos de duas décadas após o advento comercial da internet, uma pergunta sem resposta fustiga as relações entre esta “jovem mídia” e “os “mamutes de papel”, na feliz expressão de Luiz Weis (20/08/2004b): qual é a fórmula para o jornal impresso se manter vivo e relevante? Na história das comunicações não existe paralelo de tamanha incompatibilidade, nem mesmo a entrada em cena da TV disputando com o rádio.
No entorno desta indagação há uma acirrada disputa de poder – “morte e vida” como caracterizou Alterman (OI, 10/06/2008) – na qual os jornais estão tentando encontrar uma saída, um rumo.
Os EUA e a Europa, referências da modalidade impressa do jornalismo, aparecem, neste momento, imersos no epicentro deste furacão midiático. Enquanto os sites de jornais batem o recorde de visitantes (só no primeiro trimestre de 2008 nos EUA, mais de 66,4 milhões de visitantes únicos, 12,3% a mais que o mesmo período de 2007), entre os editores e publishers dos impressos americanos, o clima é de velório. Vejamos os dados:
A circulação nos dias úteis, que em 1990 era de 62,3 milhões de exemplares caiu para 55,8 milhões em 2000 e para 50,7 milhões, em 2007; aos domingos, os números são de 62,6 milhões (1990), 59,4 milhões (2000) e 51,2 milhões (2007). A receita de publicidade, que tinha dado um salto extraordinário dos US$ 30 bilhões de 1991 para o pico de US$ 48,7 bilhões, entrou numa espiral descendente. Os US$ 42,2 bilhões do ano passado representaram uma queda de quase 10% em relação a 2006 (MOLINA, 09/09/2008).
No sensível território das bolsas de valores, as editoras de jornais cujas ações são negociadas ali perderam 42% do seu valor de mercado, de 2005 a 2008. Outro dado revelador do tamanho da crise é a redução de postos de trabalho: de 1990 até o começo de 2008, 25% dos empregos de jornalistas desapareceram.
São indicadores que parecem justificar, plenamente, a visão dominante no mercado americano: “Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás” (ALTERMAN, 08/06/2008).
Contudo, este cenário é comum apenas aos EUA e alguns países da Europa. Puxando os números dos jornais para cima, aparecem os países da Ásia (notadamente, China e Índia) e América Latina (Brasil à frente):
Segundo a Associação Mundial de Jornais (WAN), nunca se leu tanto jornal como agora. O crescimento tem sido contínuo nos últimos anos. Em 2007, circulavam 11,7 mil diários pagos em todo mundo, 3% mais que no ano anterior, com uma circulação conjunta de 532,2 milhões de exemplares – 2,6% superior a de 2006 e 9,4% a mais do que cinco anos antes. (…) O número de jornais distribuídos gratuitamente no mundo triplicou de 102, em 2003, para 312 no ano passado e a circulação saltou, nesse período, de 15 milhões para 167 milhões, 11 vezes. Aumentou a leitura dos jornais pagos e dos gratuitos (MOLINA, 09/09/2008).
Meyer (2007, p. 232), citando pesquisa realizada por Clark Gilbert (Harvard Business School), em 2003, oferece outra indicação positiva ao futuro dos jornais de papel:
Quatro em cada dez leitores de sites de jornais lêem o produto tradicional impresso; dois em cada dez são, na verdade, assinantes; o produto on-line atende à utilidade, é uma forma de ter acesso rápido a informação útil para a vida dos leitores. O uso mais impressionante de todos esses sites, mesmo nos mercados menores e mais locais, é a criação de uma rede de leitores (MEYER, 2007, p. 232).
A pista deixada por Meyer indica uma urgente e inadiável atitude: “Quem quiser preservar a função de responsabilidade social da imprensa, melhorando sua qualidade, tem de parar de se queixar e começar a olhar o produto integrado, não só sua porção fabricada com papel e tinta” (MEYER, 2007, p. 233).
Esta parece ser, até meados de 2008, a tendência dominante do mercado de jornais impressos. Os players já não recorrem mais aos consultores-pitonisas para checar os “búzios” a respeito da longevidade de seus produtos. Começam, celeremente, a buscar uma saída na convergência entre on-line e impresso, potencializando os dois nichos de negócios, mobilizando esforços de uma e outra versão no sentido de fortalecer a ambos (o on-line remete ao papel, que por sua vez faz nova remissão ao meio on-line).
“Qualquer que seja a nova forma de jornalismo, ela precisará de um abundante manancial de jornalistas éticos e capazes. Essa necessidade nunca mudará”, recomenda o autor (MEYER, 2007, p. 239).
Um elemento que deixou profundas marcas no jornalismo americano contemporâneo, pouco citado e explorado por analistas e pesquisadores, é a erosão de credibilidade, especialmente do meio impresso, verificada após o 11 de setembro. Entre o adesismo, sem pudor, ditado por interesse econômico e ideológico, a mídia americana comprou as teses da guerra contra o terrorismo e buscou, de todas as maneiras, justificar a política belicista do governo Bush. Assim, justificou as invasões no Afeganistão (a pretexto de caçar Osama Bin Laden) e no Iraque (para combater o perigo da ditadura Hussein e suas supostas armas de destruição em massa – que jamais foram encontradas).
Nesse vácuo, cresceram importantes iniciativas empresariais, balizadas por outra visão política e teórica, resultando em megablogs como o Huffington Post, de perfil progressista, que conquistou o público em 2005 contestando as reportagens de Judith Miller, para o The New York Times, justificando a política militar e internacional de George W. Bush. Como o fizeram os jornais impressos do passado, blogs e sites noticiosos firmavam uma posição de independência política, em defesa do interesse público.
O Huffington Post tem hoje um acesso mensal de mais de 11 milhões de visitantes únicos, perdendo apenas para os sites dos oito maiores jornais americanos. Mais adiante, voltaremos ao HuffPost e a sua pretensão de ser a “CNN da era digital”.
A resposta à questão crucial é, por ora, um promissor “não”. Porém, há um longo caminho a ser percorrido tanto pelas forças de mercado quanto pelo mundo da pesquisa e produção de conhecimento na área jornalística. É a própria Arianna Huffington, fundadora do Huffington Post (em parceria com Jonah Perreti e Kenneth Lerer), que diz convicta:
Todo mundo fala da morte dos jornais, como se fosse um caso encerrado. Eu acho isso ridículo. A mídia tradicional só precisa perceber que a palavra digital não é o inimigo. Na verdade, é a palavra digital que vai salvar os jornais, contato que eles a adotem de verdade (ALTERMAN, 08/06/2008).
Num cenário de convergência digital acelerada, há questões teóricas a serem equacionadas, como um novo conceito de notícia que emerge das experiências de jornalismo on-line, bem como um conjunto de questões em aberto, em termos de mercado, que podem inspirar um reposicionamento desta tradicional mídia, no conjunto do produto integrado.
AQUI, você ler a parte I do artigo e AQUI, a II.
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* Santareno, é docente e coordenador do curso de jornalismo do Bom Jesus/Ielusc, em Joinville (SC). É doutor em Mídia e Teoria do Conhecimento pela UFSC.












1 Comentário Recebidos
29/10/2008 @4:13 am
E mais um jornal tradicional “”The Christian Science Monitor” (com 100 anos de existência) deixará o papel pra se tornar apenas digital: http://mediascopio.wordpress.com/2008/10/28/sinal-dos-tempos-monitor-abandona-o-papel/
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