por Samuel Lima
A convergência entre impresso e digital: diálogo possível, e urgente - II
(…) Pensar a sincronia entre o meio de papel e seu similar on-line passa pela compatibilização de rotinas produtivas, enquadramentos e limitações organizacionais dos dois suportes e linguagens.
Para ficar apenas nos impactos na construção da notícia, podemos comparar alguns elementos na tabela abaixo na qual (1) são elementos de edição e (2) do texto:
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Mídia one
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(1) Seleção, ordenação, enquadramentos e hierarquização orientados por know-how profissional.
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(1) Seleção, ordenação, enquadramentos e hierarquia construídos (em tese) em diálogo imediato com a interatividade.
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(1) Gatekeeper como eixo para o agendamento. Diálogo tardio com leitor. O editor como “farol” do conhecimento jornalístico.
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(1) Escolhas do gatekeeper dialogam com preferências do leitor (v. Eric Alterman e o Huffington Post). Agendamento do gatekeeper pelo leitor.
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(1) Seleção necessária por limite físico
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(1) Baixa seleção, em função da virtual ausência de limite em meio eletrônico
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(1) Ordenação por categorias editoriais
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(1) Ordenação fluida, às vezes por imitação de categorias editoriais tradicionais, às vezes sem isso (como em alguns blogs), às vezes mista (como o uso de tags)
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(1) Hierarquização rígida, dada pela distribuição de página (embora subversível pela não-linearidade de toda leitura)
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(1) Hierarquização diluída: disputa entre título principal e foto principal; disputas entre títulos secundários; ordenação em lista. Não-linearidade potencializada pela mídia.
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(1) Didatismo limitado a recursos gráficos. Custo elevado para produção própria.
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(1) Didatismo potencializado por multimídia. Custo compartilhado com remissão a conteúdo alheio.
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(2) Compromisso com a “universalidade”
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(2) Compromissos com a particularidade: foco no leitor
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(2) Gêneros mais estanques: notícia, reportagem, análise, crítica, opinião. Prioridade para informação (e não opinião)
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(2) Fusão de gêneros, em parte provocada pela multimidialidade. Presença abundante da opinião: de volta ao proselitismo?
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(2) Práticas reiteradas em torno do “texto curto” (em quase todo o Ocidente)
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(2) Prioridade para o “texto curto” na forma da notícia. Pluralidade de estilos e extensões nas formas em gestação.
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(2) Redundância da informação em xeque: é esse o papel do jornal / da revista?
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(2) Redundância da informação reconhecida como mérito.
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Fonte: MICK, J. Entrevista ao autor em 23/04/2008.
Há inequívocas complementaridades postas nesta breve comparação, centrada nos impactos na construção da notícia. É possível afirmar, com base nesta categorização, que está posta a necessidade, muito mais que simples perspectiva, de sincronizar e produzir, de forma convergente, as mídias impressa e on-line, em benefício da notícia e da qualidade do jornalismo.
Em meio ao fogo cruzado entre os fronts tradicional (impresso) e on-line (ou digital), a possibilidade de convergência é de tal modo crucial que o Instituto Norte-Americano da Imprensa chegou ao preciosismo de elaborar um “guia de sobrevivência dos jornais, na era da Internet”.
Algumas propostas têm sido comuns: encontrar nichos de mercado, desenvolver produtos e serviços on-line como jornais, guias, redes sociais, comunitárias e projetos wiki (como a Wikipédia) para novos públicos, principalmente os não-leitores. E tudo sem perder o foco principal do negócio, no caso da principal empresa ser a de jornal impresso, buscando sempre desenvolver receitas on-line e impressas que se auto-reforcem.
Molina (09/09/2008) cita o pesquisador espanhol Javier Errea, que fez um contraponto às previsões apocalípticas de fim do jornal em papel, em recente congresso de empresários do setor. Dentre os “dez mitos” sobre os jornais, segundo Errea, destacamos: (1) Os jornais estão morrendo… Para ele mais um problema de auto-estima de alguns empresários do setor e cita o exemplo de Rupert Murdoch e Carlos Slim (bilionário mexicano que acabava de comprar 6,4% das ações da New York Times Company); (2) Apostar em formatos cada vez menores… Errea diz que isto significa não pensar no leitor; (3) Os jovens não estão interessados nos diários; não lêem… Destaca o alto poder aquisitivo dos jovens e afirma que eles “lêem quando a leitura é atraente”; (4) Os leitores têm o poder… Para Errea, fazer jornal é coisa para jornalistas. O bom jornalismo sempre esteve aberto aos leitores e isto não é uma questão de voto; (5) Diários muito leves, para atrair os jovens… Ele cita os sucessos mundiais da literatura juvenil, como Harry Potter, com centenas de páginas e nenhuma ilustração.
O ponto de congruência entre as mídias impressa e on-line está posto na percepção mais apurada do momento histórico pelo qual passamos. Duas visões gerais se alinham nesta perspectiva. Martinez (2007) assim o descreve:
Uma nova era, liderada por uma revolução informacional. Uma era pós-industrial, na qual os principais ativos de um mercado financeiro que atua em tempo real 24 horas por dia são a informação e a velocidade com que ela se propaga. Se as duas primeiras revoluções foram baseadas na energia (vapor e eletricidade), a terceira é baseada na informação. Ela pode ser a mola propulsora da sociedade, a forma de organização e planejamento de toda a atividade produtiva (MARTINEZ, 2007, p. 25).
Na mesma direção, Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas, avalia que “não são tempos de simples evolução tecnológica, mas de mudanças radicais e transformadoras, comparáveis à invenção da imprensa e da revolução industrial” (ROMERO, 09/09/2008). O pesquisador observa ainda que “a Internet é apenas a ponta de enorme iceberg, o primeiro indício de uma grande revolução digital. Neste novo cenário, é preciso reconstruir o jornal para a era digital, pois os modelos de negócios atuais já estão obsoletos” (ROMERO, 09/09/2008).
A medida precisa do alcance das novas mídias foi dado no âmbito do segundo seminário internacional sobre jornalismo on-line, o Media On, realizado em São Paulo, no começo de setembro de 2008. Um dos temas destacados foi a internet na eleição presidencial americana, então em curso. O jornalista Francisco Mendez citou dados de pesquisa realizada pelo Pew Research Center, revelando que “24% dos americanos dizem usar a internet como principal meio para obter notícias sobre a campanha” (LINS DA SILVA, 14/09/2008).
O número alcançado pela internet estava atrás da TV (com 32%) e dos jornais impressos (com 31%), ainda que superior às porcentagens registradas em 2004 (13%) e 2000 (9%). Lins da Silva incorre em equívoco ao não considerar também o processo de universalização do acesso ao mundo web, ocorrido nos últimos oito anos, tanto em termos tecnológicos (velocidade, hardware e software disponíveis) quanto em número absoluto de cidadãos americanos plugados. No entanto, não obstante todo “glamour” e capacidade de sedução, as fontes de informação on-line ainda perdem para a televisão e o jornal de papel.
Segundo Mendez, há sites que se tornaram referência obrigatória do público interessado na cobertura da campanha, oferecendo informações bem apuradas, sem compromisso partidário com nenhum dos dois lados em disputa, amparados em boa metodologia de apuração e publicação. Cita os sites www.realclearpolitics.com e www.politico.com como exemplos a serem seguidos. Lins da Silva (14/09/2008) observa ainda que muitos blogs descambaram para o mais explícito sectarismo ideológico e partidário, “sem nenhum compromisso com os fatos”. E pondera: “Será interessante observar o efeito que essa crescente influência da internet terá sobre a maneira como os cidadãos se relacionam com as instituições públicas e entre si na sociedade” (LINS DA SILVA, 14/09/2008).
Neste contexto, vale ainda o alerta preciso de Wolton (2004, p. 311): “O desafio do jornalismo não é fazer concorrência com a Internet. Por outro lado, reivindicar o caráter generalista da informação-imprensa, não no nível zero da informação, mas no de uma escolha que remete ao imperativo democrático”. E arremata: “Isso significa reafirmar o papel essencial do jornalista como mediador generalista entre o espetáculo do mundo e o grande público destinatário de seu trabalho”, seja produzindo para o tradicional jornal impresso ou on-line.
AQUI você ler a Parte I; AQUI, a Parte II e AQUI, a Parte III
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* Santareno, é docente e coordenador do curso de jornalismo do Bom
Jesus/Ielusc, em Joinville (SC). É doutor em Mídia e Teoria do
Conhecimento pela UFSC.












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