Tibério Alloggio (*)
Em pouco mais de 3 décadas, o cenário sóciopolÃtico da América Latina já conhecido pela virulência das ditaduras militares, mudou quase que totalmente. Após a queda dos regimes militares, o continente latino parece estar recuperando suas raÃzes culturais, se re-encontrando com si mesmo, e se movendo rumo ao fortalecimento de suas recentes democracias.
O amargo remédio neoliberal imposto primeiro em dose única com as forças armadas, e sucessivamente em doses diluÃdas nas gestões “democráticas” dos Menem, Fujimori, e FHC da vida, parece ter produzido o efeito contrario: o ressurgimento de uma esquerda continental e o ódio popular a qualquer palavra que pode lembrar o neoliberalismo.
Na América Latina o neoliberalismo, que resultou na desigualdade social maior do mundo, no desmonte dos Estados, e na falência das economias nacionais, tornou-se hoje, o divisório entre o que é Esquerda, e o que é Direita.
Todavia, se é inegável a perda de espaço do neoliberalismo, analisando caso a caso os paÃses envolvidos em processos de mudanças (Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai, BolÃvia, Equador e Nicarágua), nota-se que as alternativas ao neoliberalismo ainda não conseguiram se firmar como algo comum. Diferenças substanciais observam-se nas diferentes conjunturas nacionais, e um olhar mais atento pode perceber que provavelmente estamos falando de maneiras diferentes de ser esquerda.
Em paÃses, como Brasil, Uruguai e Nicarágua, por exemplo, a vitória eleitoral da esquerda parece diretamente vinculada ao fortalecimento histórico de forças polÃtico-partidárias, como é o caso do PT, da Frente Ampla e da Frente Sandinista. Pelo contrario, em Paises como BolÃvia, Equador e Venezuela os partidos, de esquerda, tiveram um peso bem menor na eleição de seus presidentes, e ao olharmos atentamente o rosto dos eleitos, percebe-se que a “questão étnica” teve um peso relevante em suas eleições.
Na Venezuela, BolÃvia e Equador, também é forte a impressão de que existam elementos revolucionários na conjuntura social, pois é só assim que se explica a imensa mobilização social, que desembocou na vitória de Hugo Chavez, Evo Morales e Rafael Correa. Ademais esses três Paises dão mostras de buscar uma mudança mais radical do modelo econômico, através da nacionalização dos recursos nacionais estratégicos, e a re-estatização de empresas privatizadas.
O presidente Hugo Chavez, recentemente colocou na agenda polÃtica o objetivo de construir o “socialismo do século XXI”, e desde então, Evo Morales, e Rafael Correa fizeram a mesma opção. Nota-se porem, que a radicalidade das mudanças propostas contrasta com o nÃvel inadequado de organização da sociedade civil, onde ainda predominam a fragmentação e a relativa fraqueza dos partidos de esquerda e das organizações sociais.
Os casos de Brasil e Argentina refletem uma situação singular. A eleição de Lula, que em quase nada contesta o modelo neoliberal, e de Nestor Kirchner são sintomáticas. Apesar de os dois paises terem uma polÃtica interna moderada (centro esquerda), o Brasil é quem mais disputou a hegemonia do império americano, conseguindo vitórias importantes como o enterro da ALCA, e avanços significativos no processo de integração da América do Sul. Enquanto a Argentina foi o paÃs que deu a cara a bater para o maior enfrentamento com o capital financeiro internacional, forçando a reestruturação de sua dÃvida pública.
Mais, ou menos radicais em suas polÃticas, e discursos, esses paises tiraram proveito do fracasso ideológico-polÃtico-eleitoral do modelo neoliberal, conseguindo realizar enfrentamentos pontuais, mas por enquanto, ainda não conseguiram construir um projeto comum de saÃda ao modelo neoliberal.
Embora o crescimento das forças de esquerda seja visÃvel, e o socialismo tenha voltado a fazer parte do debate polÃtico continental, a América Latina continua vivendo uma fase de transição, onde o acumulo de forças das diferentes esquerdas, ainda não resultou num novo projeto econômico e social.
Se por um lado o neoliberalismo e a hegemonia norte-americana estão ficando para trás, por outro lado o rumo futuro do continente continua incerto. Ademais, considerando a força que os EUA e o grande capital financeiro, ainda têm no conjunto da América Latina, podemos dizer que muita estrada terá que ser percorrida, pois abalos importantes ao modelo neoliberal e avanços decisivos na integração continental poderão vir só com uma ação conjunta das nações latino-americanas.
Nada disso, porém, reduz o valor do novo protagonismo latino americano caracterizado pela ousadia da Venezuela, pela coragem da Argentina, e pelo tamanho do Brasil, e, sobretudo, não diminui o efeito da surra que a direita continental tem levado na maioria dos paÃses latino americanos.
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Sociólogo. Reside em Santarém. É articulista do blog.












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