por Tiberio Alloggio (*)
Durante dois dias, representantes dos governos, ONGs e movimentos sociais do oeste do Pará debateram ações e implementações do Plano BR 163 Sustentável. No seminário, foram analisadas as etapas previstas para que um simples projeto de pavimentação rodoviário se tornasse um grande programa de inclusão social e de desenvolvimento regional, minimizando os impactos negativos e maximizando os impactos positivos.
Mais uma vez, o paradigma da “sustentabilidade” voltou à tona, porém mostrando todos os limites de compreensão de governo e sociedade, sobre um conceito de entendimento elementar. Mais uma vez foi detectado o “atraso” na execução do cronograma do plano, suas falhas e os limites de sua execução. Tudo confirmado pelo passivo social e ambiental que a região toda continua sofrendo.
Se por um lado governo e sociedade estão se mostrando mais conscientes, de outro, continuam carecendo de ações efetivas, deixando prevalecer a tendência a “responsabilizar os outros”, sempre na espera que sejam “os outros” a tomar as providências. Para a sociedade, é sempre o governo que está em falta, para o governo é a sociedade que não acompanha.
Mas há um dia na vida de governos e sociedade, e inúmeras medidas a serem tomadas, e que envolvem (efetivamente) o modo agir, de produzir, consumir, enfim, o modo de viver das pessoas.
Enquanto só se discute e se fala de sustentabilidade, a situação da nossa vida no planeta se torna a cada dia mais insustentável.
Segundo o relatório anual (Living Planet Report 2008) sobre o estado de saúde do planeta, em 2030 a espécie humana irá precisar de dois planetas Terra para satisfazer suas necessidades de bens e serviços. O constante crescimento da população e o do consumo individual, nos últimos 45 anos, contribuiu para que a demanda de recursos da humanidade sobre o planeta praticamente dobrasse. Significa que hoje a demanda sobre os recursos naturais do planeta já ultrapassa de 30% a sua efetiva capacidade regenerativa.
Mais de três quartos dos habitantes do planeta vivem hoje em países com saldo ecológico devedor, ou seja, onde o consumo nacional já excedeu a capacidade de reposição dos recursos naturais do País.
Enfim, pela primeira vez o consumo total da humanidade excedeu a bio-capacidade de reposição do nosso planeta, e esta tendência só continua crescendo. A humanidade está vivendo além de suas possibilidades, numa especie de “bolha ambiental” que, ao contrário das bolhas do sistema financeiro, é mais difícil de ocultar e, quando estourar… salva-se quem puder.
Não estamos falando de Bolsa de Valores, ações e/ou títulos do mercado futuro, mas sim do ar, da água, dos alimentos, ou seja, das nossas vidas, pois a natureza não aceita cheques e cartões de crédito e se colapsar é quem desfrutava dela que paga o preço.
Então o rico se torna pobre, o pobre torna-se miserável, e quem tinha pouco para comer acaba por morrer de fome. Ainda assim, há “intelectuais” que adoram dar uma enroladinha, nos explicando que o “paradigma” do desenvolvimento sustentável não ocorre de forma linear e cartesiana, mas mediante um processo dialético, com as teses, antíteses e sínteses, que se transformam em novas teses e assim sucessivamente…e bla, bla, e bla…
É a lógica de transformar o fácil em difícil. Minha avô já me dizia que não podemos gastar mais daquilo que ganhamos. E que não se pode consumir mais daquilo que se pode produzir. Isso é sustentabilidade. Nossos país, avôs e bisavôs sempre diziam isso.
Sustentabilidade é um conceito tão simples de entender que nossos cérebros tão complexos parecem ter perdido a capacidade de processamento. Enquanto continuamos a falar de sustentabilidade, vivendo acima de nossas possibilidades, o Living Planet Report 2008 descreve um planeta cada vez mais doente e habitado por homens limitados.
Será que ainda há tempo para mudar o nosso atual estilo de vida e agirmos para reorientar nossas economias rumo a caminhos mais sustentáveis? Ou já é tarde demais para escapar de uma “recessão ecológica”?
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* Sociólogo residente em Santarém. Escreve regularmente neste blog.













4 Comentários Recebidos
5/11/2008 @7:45 am
O Brasil está perdendo a oportunidade de sair na frente na corrida mundial pela construção de um mundo saudável. Enquanto nos anos 60 do século passado a humanidade viveu a corrida tecnológica para chegar à lua, o século XXI marca a corrida ecológica para se chegar a uma terra saudável no futuro próximo.
5/11/2008 @9:08 am
Há muito pessimismo exagerado, o mundo vai muito bem, quem vai mal é o homem, essa coisa de justificar o futuro (meus netos merecem um planeta melhor), é uma necessidade da imortalidade imbecil da sociedade.
Tudo está em torno da vida longa, hoje todo mundo acha que vai viver 100 anos, não adianta, o mundo se transforma todo dia e deve sofrer transformações sempre. A baleia vai acabar,o mico leão também e como o homem não deve ser diferente, a pesar dele tentar se imortalizar.
O mundo tem milhões de anos e muitos seres vivos já passaram por aqui, e não voltaram, e nem vão voltar, mas o homem quer ficar eternamente, é por isso que o Homem sabiamente criou Deus e não Deus criou o homem.
O homem criou Deus para justificar a permanência dele na terra, acredita que Deus quem criou tudo isso aqui e que ele é a imagem e semelhança do criador, por isso deve ficar pra sempre comandando o resto dos seres.
Está enganado, vai desaparecer do mesmo jeito dos dinossauros e outros monstrinhos que já gozaram das mordomias terrestre, não adianta sustentabilidade, e essas fórmulas baratas de imortalidade, acabou acabou, por isso eu digo viva em paz e esqueça o que vem pela frente.
Homem virtual
5/11/2008 @11:52 am
Parabéns pelo texto Tiberio.
Acredito que tudo está virando um colapso, a terra é como um organismo vivo que a tempos está inflamando, o futuro é uma necrose, seguido de um cancêr até o fim da espécie.
A pavimentação da BR-163 além de acelerar o desmatamento da amazônia com o extrativismo ilegal de madeira, vai trazer o suposto “desenvolvimento”, trará também bandidos, drogas, prostituição, tudo de ruím que existe, você não vai mais poder deixar seu carro aberto e ir comprar alguma coisa no seu camilo, qdo voltar só restará o lugar onde seu carro estava.
A preservação da amazônia foi um dos pedidos do presidente Lula, se o maia ganhasse estariamos perdidos, pois ele foi apoiado por sojeiros e madeireiros.
Poucos já se concientizaram que a natureza tem todo o tempo do mundo, nós não.
Ainda da tempo..
5/11/2008 @12:44 pm
Concordo com o Homem Virtual. Já faz tempo que a Natureza/Planeta está expurgando o animal humano da sua superfície. E digo mais, lembrando o dito do sábio indígena:”quando o homem perceber que o último rio secou e a última árvore foi derrubada ele descobrirá que não come nem bebe dinheiro”.
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