por Tiberio Alloggio (*)
Quem olha os resultados eleitorais além da torcida por um ou outro candidato sabe que a vitória ou a derrota de um projeto político são conseqüências de processos profundos que ocorrem no “corpo da sociedade”.
Olhando por essa lente, veremos que Maria do Carmo não derrotou apenas um projeto qualquer, mais ou menos ruim. Sua vitória representou o tombo de um “grupo político local” enraizado e acasalado ao “ruralismo” da pior espécie. Uma espécie de “negócio da china”, capaz de juntar tudo do que há de pior no mercantilismo, e que presenteou Santarém com uma temporada de atraso e de problemas.
Além disso, a vitória de Maria também representa (feito exceções) o velório da imprensa mercantilista santarena, voz e megafone dessa sorta de “desenvolvimento fuleiro”, e que haverá de buscar “valores” menos descabidos, se quiser sobreviver ao seu ocaso.
Agora, liquidada a “fatura eleitoral” abre-se um espaço importante para uma reflexão mais profunda sobre o papel da esquerda e dos movimentos no rumo da política do segundo governo Maria do Carmo.
Maria foi candidata em 1996, 2000, 2004 e 2008. Perdeu duas e ganhou duas. Dos vários partidos de esquerda, apenas o PT (seu partido) a apoiou em todas as eleições, os demais vieram depois. Nessa trajetória, Maria recebeu também o apoio formal ou informal de importantes organizações sociais (STTR, Colônia dos Pescadores, ONGs e movimentos sociais).
Ao assumir o Governo em 2005, Maria (além da coligação de esquerda, que a elegeu) recebeu o apoio de alguns partidos de centro e de direita, que resolveram apóia-la, formal ou informalmente.
Por isso, seu governo hoje é composto por partidos de esquerda, de centro e de direita, incluindo nele uma representação social, tanto das classes trabalhadoras filiadas ao PT quanto da “elite” ligada às “lobbies” familiares e empresariais.
Como nessa eleição houve a ampliação da coligação, a composição politico partidária do Governo pode cair ainda mais para o Centro, podendo gerar uma redução da presença da esquerda no governo versus um crescimento dos partidos de centro/direita. (…)
Por isso, se faz necessário clareza, bom senso, e uma condução equilibrada da Maria na composição de sua equipe e na definição das prioridades de governo, pois um enfraquecimento da esquerda não pode ser o preço pago por ter detido Lira Maia.
Se Lira Maia foi pra o saco, é porque a expectativa produzida na sociedade santarena foi a de que teremos um segundo mandato melhor do primeiro. E, além de melhor, mais à esquerda. Não há duvida que o Maria 2, começa em condições melhores do que o primeiro.
A conjuntura nacional e estadual é favorável; a correlação de forças é melhor; a situação orçamentária também é melhor; e agora a esquerda conta com mais experiência, tanto política quanto administrativa.
Uma esquerda, porém que já não é mais a mesma de quatro anos atrás e que está começando a mexer no seu próprio campo político, lançando sinais claros de que é preciso evoluir.
Pela primeira vez em Santarém o PSOL, um partido à esquerda do próprio PT, concorreu sozinho, enquanto as direções dos principais movimentos sociais, embora apoiando a reeleição de Maria, lançaram candidatos mais “independentes”, posicionando-se de maneira cada vez mais explícita e crítica contra o que consideram aspectos conservadores desse governo.
Este sentimento crítico presente nas bases sociais e de esquerda, pressupõe que no segundo mandato, não haverá mais apoio automático e incondicional, a toda e qualquer coisa que o governo faça.
Esta postura decorre da avaliação de que, no primeiro mandato, cometeram-se erros decorrentes do distanciamento entre os princípios democráticos e de esquerda com o “pragmatismo oco” do dia dia da atuação do Governo, e que não devem ser repetidos:
a) Uma politica de conciliação e “coexistência pacífica” com os interesses da “elite santarena”.
b) Uma política de “governabilidade institucional”, baseada só na construção de maiorias na Câmara, subestimando o caráter estratégico da “governabilidade social”.
c) Uma “elitização” do Governo, que o afastou do povo, descaracterizando a sua matriz democrática e popular.
d) Uma política que “ignora” as praticas do nepotismo e do fisiologismo politico, fazendo de conta que não é com ele.
e) A transformação do PT em “correia de transmissão” do governo.
Desde que o PT tornou-se governo, seus dirigentes acabaram acumulando a função partidária com os cargos de governo, confundindo e misturando funções totalmente diferentes.
Essa pratica já afastou o PT de suas bases e está contribuindo ao “sumiço” do PT no dia a dia da ação social, tanto que, o Partido hoje nem consegue se mobilizar para o Dia do Trabalhador. Só se mobiliza entorno de campanhas eleitorais, nisso igualzinho aos demais partidos.
São sinais importantes, que na euforia de exercer o poder todos esquecem, mas se o PT quiser se perpetuar como partido popular e continuar protagonizando o campo da esquerda na próxima década, terá que retornar a existir socialmente, reatar os laços com a esquerda política e social. Voltar a estimular e fortalecer a ampliação das lutas sociais.
Enfim, para que o segundo mandato de Maria se torne um momento de consolidação de um ciclo de desenvolvimento democrático-popular, o PT terá que alterar de forma radical a linha política e o funcionamento organizativo desses últimos anos.
A conferir.
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* É sociólogo e reside em Santarém. Escreve regularmente neste blog.













14 Comentários Recebidos
16/10/2008 @9:10 am
Esse é o Tiberio que conheço!! Do jeito que o povo gosta!
Parabéns pela lucidez e capacidade de fugir do salto alto.
16/10/2008 @9:32 am
Caro Tibério,
Esta foi uma das análises mais lúcidas e completas que você já fez aqui. Concordo e assino embaixo, com apenas uma pequena intervenção: Lira Maia ainda não foi “pro saco” totalmente. Isso pode se confirmar na próxima eleição, e principalmente se a Justiça o alcançar.
Mas até lá é bom estar atento às movimentações no tabuleiro do xadrez político, no qual Maia tem grande desenvoltura. Mas como todo o jogador, há um dia que dá um branco e ele dá uma mexida errada (como foi sua re-recandidatura nesta eleição). Deu no que deu: levou um poderoso xeque-mate e pedeu ESTA PARTIDA. Uma nova partida já começou e as primeiras jogadas (já anunciadas) serão vistas durante a eleição para a presidência da Câmara.
Há três anos, quando pela primeira vez fiz uma análise sobre a figura de Lira Maia, com o qual desenvolvi um trabalho de marketing durante 8 anos, através de minha já extinta empresa de publicidade, disse aqui no Blog do Jeso que Maia é como cobra-de-vidro (leia aqui: http://www.jesocarneiro.com/geral/maia-e-cobra-de-vibro-diz-ninos.html). E isso não mudou.
Tibério, apesar de elogiá-lo por seu artigo, principalmente por ter mantido um distanciamento dos fatos para uma análise mais científica e menos passional, temo que, logicamente, alguns energúmenos fascistóides avessos ao debate democrático não devam concordar com isso e a qualquer momento vão iniciar a prática de seu passatempo favorito aqui no Blog do Jeso: tiro ao alvo no Tibério.
É esperar pra ver.
16/10/2008 @10:22 am
O Governo Maria do Carmo apesar de todo apoio recebido, seja de grande maioria dos partidos políticos, seja da maioria da sociedade civil organizada, seja de organizações não governamentais, que cumpre ressaltar, recebem muito dinheiro para isso, que o diga a CPI das ONG´S, não consegue sequer resolver comezinhos problemas que acometem nossa cidade, pois, infelizmente, ainda convivemos com cenas tristes de mortes de pessoas humildes por falta de atendimento médico de qualidade no Hospital Municipal de Santarém, bem como ausência de medicamentos e insumos para um perfeito e salutar tratamento dos enfermos que lá se encontram.
Então, o que adianta discursos e ideologias partidárias, se o que o povo necessita é de políticas públicas pragmáticas que a curto prazo, o beneficiem diretamente, fazendo com que as nossas dores e sofrimentos sejam minimizadas. Não sejamos hipócritas, precisamos de atitude e competência, atributos que, infelizmente, esse tacanho, inoperante e atrapalhado Governo não possui.
16/10/2008 @10:41 am
Caro Tibério,
o desafio do PT é enorme, não só em Santarém ou no Pará, mas em todo Brasil.
No Pará, depois de alguns dos seus principais nomes anunciaram apoio ao Priente em Belém, me parece que uma das últimas lembraças de um partido genuinamente de esquerda, coadunado com as lutas sociais, desapareceu diante do quadro lastimável que esse cacique regional do PMDB representa de simbólico - a direita mais perversa e oligárquica do Brasil.
Por mais que se agite num copo, óleo e água não se misturam. Um governo de direita-centro e esquerda não se governa.
Caso essa experiência de governo dê certo, Santarém entrará para a história como um exemplo das maiores inovações das ciências políticas que se teve história.
Não dá para esperar pra ver o que vai dar esse governo irreal sem já sentir lágrimas nos olhos dos miseráveis que crescem com fome nas periferias que não param de crescer na nossa trágica Santarém. Mas antes ele que o Lira Maia, sem dúvida nenhuma.
Agripino do Lago Grande
16/10/2008 @11:07 am
Tudo o que foi pregado e construído nos vinte e poucos anos por Frei Beto, movimentos sociais, sem terras, sindicatos e outros fundadores do partido dos trabalhadores enfraqueceu explicitamente quando Lula ganha a presidência, alias no filme “Entreatos” que inclusive passou aqui no Cinerama, lula afirma isso sereno e muito consciente que não suportaria mais esperar pelo projeto da esquerda.
O plano da esquerda, por algum momento era vir conquistando o campo, depois ganhar as cidades, os estados e finalmente chegar a presidência, Lula afirma isso no filme, este tempo estava estimado em 35 anos de trabalhos nas pastorais, nos sindicatos nos movimentos sociais, sem terras etc, Lula junto com Dirceu, Genoino, Mercadante, aquele japonesinho, Palocci e a turma do ABC mudaram essa estratégia.
Lula afirma no filme que já estava ficando velho demais e tinha que ser já a tomada do poder e deveria ser pela presidência, pois vislumbrava derrotar José Serra naquele instante e que não iria esperar mais 10 ou 15 anos para a conclusão de um projeto incerto, Lula inclusive ressalta que na Polônia Lech Valessa errou quando trouxe para governar o pais os metalúrgicos e não técnicos habilidosos, mas com ele seria diferente.
Maria do Carmo absorveu todas as mudanças articuladas pela executiva nacional e se elege em Santarém. Assim começou um outro tempo na história do partido, reflexos que nem mesmo a militância ainda digeriu, hoje sabemos dos rachas dentro do partido, alas das mais diversas linhas de pensamentos e tal. Só que ninguém pode governar sozinho, e para mim o PT está se auto destruindo quando não compreende isso.
O enfraquecimento do PT vem das alas mais conservadoras difícil de observar que Lula sepultou aquele velho plano e os rumos do partido são outros. Hoje a prioridade do PT é revelar novos lideres, nem que para isso seja preciso busca-los na direita, ou na esquerda mais conservadora, e o tempo tem sido cruel com este partido, pois parece que ainda não surgiu nem sucessor pra Lula e nem para Maria, e isso é preocupante.
Não posso arriscar aqui o futuro do PT em Santarém, mas posso garantir que tem que haver uma reforma dentro do partido e principalmente chacoalhar a militância para o surgimento de novos lideres urgentemente. Um líder de olhos para o futuro e bem acompanhado de novos projetos e com o poder navegar por todos os rios partidários de forma firme, inteligente e conciliador.
Nelson Vinencci
16/10/2008 @11:13 am
Pode contar que nas proximas horas os juquireiros vão expor suas mediocres ideias e tentar defender o “MEDALHA DE PRATA” transformando o num “ANJINHO BARROCO”.
16/10/2008 @1:05 pm
Muito boa a análise. Porém, infelizmente, não vislumbro um projeto partidário de esquerda que norteie o atual governo municipal e que se sustente para o pós-Maria. Há, sim, um projeto familiar, que por acaso está no PT, em torno do qual giram os interesses de outros segmentos sociais, uns nobres, outros nem tanto, o que torna o grupo dirigente uma mixórdia política.
Varrer a camarilha cipoalense é o ato mais importante e necessário para um mínimo de decência da sociedade santarena, contudo não devemos tapar os olhos para os atos desta atual equipe, da qual constam muitos adeptos da concupiscência com o dinheiro público. Devemos estar alertas e alertar os órgãos fiscais para quaisquer desvios de conduta, a começar pela própria praga do nepotismo que muitos teimam em manter mesmo após o seu veemente repúdio manifestado pela mais alta Corte de Justiça do país.
O projeto de esquerda em Santarém, como, de resto, em todo o país, passa pelo poder de se construir lideranças capazes de alçar voos próprios, desligadas do cordão umbilical de Maria ou Lula, e também pelo fortalecimento dos movimentos sociais, por intermédio do prestígio das entidades que os representam.
16/10/2008 @2:03 pm
O apóstolo Paulo, em suas pregações, costumava afirmar “quando eu era criança falava e agia como criança; ou sou adulto, tenho que falar e agir como adulto”.
Faço essa referência à letra do evangelho para lembrar que a esquerda brasileira, mais ampla que o Partido dos Trabalhadores, existe há muito mais de de 30 anos (idade aproximada do PT). É isso, na minha opinião, que precisa vir ao debate. Não estamos começando hoje a fazer política. A esquerda ESTÁ NO GOVERNO, precisa, como nunca, buscar formas de se consolidar como tal, e ir buscar O PODER. As táticas terão que ser outras, é claro, mas sem nunca esquecer que a força está na mobilização da sociedade, organizada ou não, e não apenas nas Instituições estabelecidas da República.
O Partido dos Trabalhadores, maior ícone da esquerda nacional, tem a obrigação de abrir este debate em todos os níveis de sua organização, com seus aliados e com toda a sociedade.
16/10/2008 @5:04 pm
Quem se propõe a comentar política deveria tentar não transformar seu texto em um mero panfleto. Pura exaltação conveniente à Maria do Carmo em detrimento de Maia. Fazer o que?!! Tibério é chapa branca assumido!!!
Por outro olhar, muito me admira o elogio feito por Jota Ninos ao texto tiberiano. Este sim um lúcido leiturista da realidade política santarena. Acho que só quis ser gentil.
16/10/2008 @6:18 pm
Professor Peloso,
A definição clássica de direita e esquerda é interessante. A esquerda no poder é SITUAÇÃO, logo, passou a ser direita. Já pensou ACM Neto, Maluf, Lira Maia, e outras figuras, vistos sob êsse ângulo? Assim se está agindo, deixando de lado, as conquitas sociais.
Direita - situação; Esquerda - oposição, logo ….
16/10/2008 @6:20 pm
Adendo: não se está deixando de lado as conquistas, mas as lutas sociais.
16/10/2008 @8:10 pm
O governo, não é liderado pelo PT, mas em nome do PT, um partido que nasceu do ideal de lideranças do movimento popular e foi assaltado, lentamente, por pessoas que nada tinham a ver com o ideal primordial que acabaram assumindo a sua liderança para proveito proprio. Os remanescentes daquele PT estão neste governo, como governados e não como governo propriamente dito. São mascaras apenas.
O governo virou um saco de gatos. E que gatos… tais como Jader, Priante, Osmano, Martins, Rochas e outros tantos.
17/10/2008 @4:13 pm
Caro comentarista, quando me pronuncio sobre a esquerda estou falando da da faceta social ideologicamente identificada com uma banda da dicotomia CAPITAL X TRABALHO. Asssim, ACM Neto, Maluf, Lira Maia, e mais uma carrada deles nada tem haver com a esquerda, pois estam historicamente ligados ao conservadorismo e não às lutas sociais do povo brasileiro.
E vamos à luta companheiro!!
20/10/2008 @5:41 pm
Que esquerda, a ambidestra?
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