abr 20 2009

Escritora diz que novela nos remete à essência da mulher de hoje

Blog do Jeso ? Debora Goldemberg | literaturaPaulistana, formada em antropologia pela London School of Economics, Deborah Goldemberg (foto) é autora da novela Ressurgência Icamiaba, seu primeiro livro, apesar de já ter diversas publicações de crônicas, poemas e artigos em coletâneas.

É atuante no movimento literário paulistano e curadora do I Sarau das Poéticas Indígenas da Casa das Rosas.

Abaixo, a entrevista que concedeu ao blog sobre a sua nova cria literária.

Por que uma novela que tem como pano de fundo a lenda das Icamiabas?

Deborah Goldemberg – A lenda das icamiabas é de conteúdo muito atual. A revolução feminista foi a transformação social de maior impacto do Século XX, pois em poucas décadas houve mudanças estruturais inimagináveis na sociedade. Vivemos hoje a era da conseqüência dos direitos adquiridos nela e, principalmente nas grandes metrópoles, mas também pelo Brasil a fora, começamos a ver a formação de uma “nação” (apesar de não se reconhecer como tal) de mulheres independentes, que chefiam os lares, tem filhos em “produção independente”, não acreditam mais no amor e travam relações utilitárias, em geral com foco sexual, com os homens, como por exemplo o fenômeno do “fuck friend” (o amigo para transar). A escolha da lenda como pano de fundo para falarmos da essência da mulher contemporânea e do amor foi devido ao distanciamento e encantamento que isso proporciona. Quando falamos de algo que aconteceu num universo mítico, as defesas do leitor se rendem mais facilmente e quando vêem eles já estão dentro da história e tendo de confrontar-se com o que ela implica.

O que há de apaixonante nesta lenda?

Deborah Goldemberg – A audácia e a coragem desta tribo de mulheres que supostamente existiu em tempos antigos, quando o feminismo de décadas atrás nos parece uma conquista sem precedentes. Nos faz pensar: “Mas elas já haviam resolvido isso tudo faz séculos!”.  Ao mesmo tempo, não consigo só admirá-las, pois tenho um pouco de medo da sua rigidez, do seu extremismo. Na lenda grega das Amazonas, as mulheres guerreiras inclusive amputavam os seios para mais facilmente utilizarem seus arco-flecha.

Qual o tempo de gestação da novela?

Deborah Goldemberg – A novela foi escrita em cerca em 3 meses, ao final de 2007. No entanto, ela foi revisada diversas vezes. A versão final só ficou pronta no início de 2009. Ou seja, no total, foram quase dois anos de trabalho, apesar de que escrevi muitas outras coisas neste meio tempo. Para mim, é muito importante escrever e depois dar um tempo para voltar ao texto depois com os olhos frescos.

Para elaborar o livro, você esteve na região amazônica fazendo trabalho, digamos, de campo, coletando informações?

Deborah Goldemberg – Eu trabalhei quase três anos na Amazônia, conhecendo o seu povo e sua natureza assustadoramente bela. No Pará, a região que eu mais visitei foi Marabá, banhada pelo Rio Tocantins. Foi lá que eu comecei a ter contato maior com os rios, vê-lo encher, transbordar e depois baixar formando as praias; lá também aprendi a tomar banho de rio, que é a coisa mais gostosa do mundo! No entanto, quando firmei mesmo a idéia de escrever a novela, foi em Santarém (que eu já havia visitado rapidamente duas vezes) que eu fiz a pesquisa de campo, descendo o Rio Tapajós no barco Abaré do Projeto Saúde e Alegria, a convite de Magnólio. Passei uma semana observando as ilhotas, os sons da floresta, os troncos caídos, colhendo folhas, aprendendo o nome das árvores, ouvindo histórias da tripulação do barco e os ribeirinhos sobre mãe-d’água, cometas, etc. A foto de capa da novela foi tirada em Alter do Chão, outro lugar muito inspirador.

Ao escrever Ressurgência Icamiaba pretendes o que do leitor, além do prazer da leitura?

Deborah Goldemberg – Estimular a reflexão é o dom e a função do escritor. Quando lemos um bom livro, sentimos coisas novas, emocionamo-nos, somos desafiados por idéias novas e, assim, nosso mundo se expande, interna ou externamente. Sobra muito pouco espaço para a reflexão e sentir no mundo moderno, onde nossos dias estão tomados por atividades de trabalho e consumo. Acho que a literatura, que exige um tempo mais calmo e uma dedicação do leitor, revive isso nas pessoas. Essa coisa de parar e sentir e refletir. É isso que eu espero proporcionar ao leitor.

Encerrada a obra, o que dela ainda “martela” na sua cabeça, como se fosse uma tatuagem colada à tua consciência?

Deborah Goldemberg – Nada martela. Quando eu encerro uma obra, eu me liberto bastante dela (ela martela é antes, pedindo para ser escrita!). Eu entrego ela para o mundo e daí em diante tenho grande prazer em ouvir os leitores falando dela, adoro, mas quando isso acontece é como falarmos de uma outra entidade, como se a obra tivesse sido escrita por outra pessoa. Vou descobrindo novos ângulos, me divertindo com as interpretações que cada um dá, às vezes coisas que você nem nunca imaginou. É o máximo!

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2 Comentários neste artigo

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  1. Nelson Vinencci comentou:

    Ei Jeso achei essa pérola no blog do Aguinaldo, famoso veado global.

    Por que não largo o blog? Por que ele não me pertence mais; está sob minha responsabilidade, mas é de todos que aqui comentam.

    Ou seja: eu sou o cambono, aquele que recebe o santo e bota pra dançar, mas o terreiro é de vocês!

    E essa é, neste momento, minha grande responsabilidade…

    Aguinaldo Silva – noveleiro global

    20/4/2009
  2. Tupaiu-açu comentou:

    O acondicionamento do episódio das amazonas à cor local gerou uma lenda, sim, mas não um mito. E, ao contrário do que Débora acha, isso é menos uma ‘revolução feminina’ de per si, como querem espécimes descendentes das seguidoras de Betty Friedan, que propriamente o resultado da cooptação da força de trabalho feminina pelo voraz modo de produção capitalista, com sérias mudanças comportamentais que trouxe para todos os gêneros, incluido mulheres, mas também homossexuais de ambos os sexos.
    Desde tempos remotos a mulher exerceu poder. É só olhar para trás, conferir a presença de inúmeras personagens histprias. Mas também no cotidiano de todos os lares em todos os tempos. Em qualquer sociedade. É só ver o caso da presença feminina em pleno exercício político já no antigo Egíto que cai por terra o viés estrábico desse discurso que quer porque quer incutir essa piguice anacrônica de uma mulher massacrada, dominada e tantas outras baboseiras fruto do histerismo de quem nunca soube nada da condição feminina.
    O certo é que as mulhreser sempre dividiram o poder com o homem. O discurso da ‘igualdade’, esse é que é recente. As mulheres, falo das femininas mesmo, que têm consciência de seu poder e de sua força, essas nunca precisaram de afirmação, elas sempre souberam exercer sua própria ‘condição’, como chamava Simone de Beauvoir o ’ser’ da mulher.
    Se examinarmos o longo processo de desmacaqueamento que tivemos que percorrer até chegar onde chegamos, dá pra ver como sempre, desde nossos ancestrais antropóides até o ‘homus burrus burrus’ dos dias de hoje, homens e mulheres foram parceiros, singulares em suas condições e no exercício delas, mas nada de dominção de um sobre outro. Afirmar o contrário disso, é caso clássico de sub-ciência pura. Ou como se disse recentemente, discurso do sub do sub. Chororô velho ou a velha mística feminina de Betty Friedan requentada?

    21/4/2009

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