Da jornalista Juliane Oliveira, sobre os 44 anos da Rádio Rural:
- Ô velho Raimundo, desliga esse rádio.
É a primeira coisa que lembro quando sou instigada a pensar a respeito da Rádio Rural.
Ainda criança fui acostumada a passar as férias escolares com meus avós paternos em uma fazenda às margens da BR-163. No ‘cem’, como chamamos até hoje aquele pedaço de chão. Presepadas e mimos a parte, o que mais me chamava a atenção era aquele velho radinho de pilha que mais parecia uma extensão do corpo do meu avô, Raimundo Carmo.
Pra que lado fosse, estava lá o radinho velho. Eram notícias, músicas e um cara da voz engraçada (nunca quis saber o nome dele – preferi optar pelo anonimato) que não paravam de conversar com o velho ‘vô’. Isso mesmo, conversar. Raimundo Carmo respondia a tudo e a todos. O que deixava a minha avó intrigada.
Depois do dia de lida, ele encostava os trecos usados na caça ou na produção de farinha de mandioca em um canto da casa de madeira e chão de terra batida. Sentava-se na rede. Nesse momento, o rádio deixava de ser parte do corpo do meu avô e era pendurado na casa com um fio ‘preparado só pra isso’ e que lhe garantia um embalo leve quando batia o vento. (…)
E lá ia o velho ‘vô’ chamar a meninada pra deitar na rede com ele. Enquanto nos embalava, ele ouvia o cara de voz engraçada falar sobre Santarém e o que estava acontecendo ‘pro lado da cidade’.
Quando ouvia algo que não gostava xingava o radialista e culpava o velho rádio pela notícia. Concluía o diálogo entre emissor e receptor com um engraçado pedido de atenção:
Olha Maria, dizia espantado e com a voz roca.
A ‘vó’ na beira da pia ou varrendo o chão insistia.
-Ô velho Raimundo, desliga esse rádio.
‘Salve, salve lembranças de duas pessoas que não voltam mais.
Abraços, Jeso, e valeu por oportunizar a lembrança de momentos que são tão importantes pra mim.












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